Marcatti e o Underground Paulista dos quadrinhos

 

Iran e Marcatti

“O alternativo no Brasil sempre foi desprestigiado, mas temos espaço para todos”

Francisco A. Marcatti Jr. nasceu em São Paulo, 16 de Junho de 1962 no bairro do Tatuapé, que é situado na zona leste da cidade, nunca morou em outro lugar. É caçula de três irmãos. Marcatti é um quadrinista bem conhecido no underground paulistano. Ficou famoso pelo seu estilo “escroto” como ele mesmo diz. Seu interesse pela arte começou antes de aprender a ler e escrever. Sempre estimulado pela família, principalmente por sua mãe que já aos seis anos de idade lhe comprava materiais para pintar e despertar sua criatividade.

Ainda muito novo sempre foi muito ligado às histórias em quadrinhos, tinha um carinho enorme pela leitura, mas o que lhe fascinava desde jovem eram essas histórias em quadrinho. Sua mãe sempre o apoiava, por isso adorava lhe presentear com gibis da época. Marcatti desde cedo sábia o que queria, não parava de desenhar, tem desenhos guardados até hoje de 40 anos atrás.

Seu foco com a carreira de quadrinista começou um pouco mais “tarde”, aos 13 anos. Na época de colégio, fez amizade com um garoto chamado Marcelo, que também tinha o mesmo interesse e adorava quadrinhos. Através dessa amizade ele pode conhecer o quadrinho estrangeiro, pois tinha acesso a pouca coisa na época. Seu contato era apenas com o que tinha em bancas de jornal. Nunca foi um grande fã de Super Herói, por isso nunca teve interesse em Marvel e coisas de fora que eram comuns de se encontrar em bancas.

No jornal havia pouquíssimas coisas, na época reinava uma ditadura militar e a Zona Leste era um lugar muito isolado culturalmente “Então o que tinha de acesso a esse tipo de material aqui era muito pouco” diz Marcatti. Quando começou a andar com o Marcelo, pode ver o quão grande era esse circuito, pois ele já tinha uma boa informação sobre o assunto, outras fontes, trazendo para cá até quadrinhos Europeus e etc. Esse assunto acabou se tornando uma rotina pra ele, deixando-o por dentro de todas as novidades do mundo HQ.

Essa nova amizade acendeu o fósforo para colocar mais fogo na paixão de desenhar. Todos os dias um fazia uma visita para o outro, passavam o dia todo desenhando, experimentando coisas novas, criando, vendo desenhos de outros quadrinistas, testando novos materiais e etc. Com o Marcelo, Marcatti pode ter contato com o underground americano, que eram quadrinhos de contestação. Depois disso começou a desenhar mais em função do underground, não tentando criar uma estética promocional ou de cultura de massa.

Sua natureza sempre foi muito ligada ao humor, uma coisa mais “tosca” e grosseira, por isso ele diz sempre ter se focado mais no underground. Nunca estudou para fazer seus trabalhos, sua competência sempre foi movida somente pela força de vontade e o prazer de desenhar.

Em meados de 1975 ouve uma abertura política, na época já havia o Pasquim que era algo leve, porém dinâmico, pois a ditadura não estava no fim, mas o que ele adorava nesses jornais eram as entrevistas com quadrinistas. O que lhe chamava muita atenção é que sempre focavam que o quadrinista é autodidata. Para ele isso era ótimo, pois se via assim também, era estimulante saber que eles aprendiam a desenhar sozinhos e não precisavam de uma formação acadêmica para seguir carreira. Marcatti sempre ligado ao traço do humor, sempre buscou em se desenvolver sozinho. Na época a questão de não ter que estudar era vista por ele, como algo positivo.

Aos 15 anos teve suas duas primeiras HQs publicadas. Foi na revista Papagaio, produzida por alunos do Colégio Equipe (onde Marcatti jamais estudou). Editada por Paulo Monteiro, Antonio Malta e Rodrigo Bezerra, a revista contava ainda com a colaboração de Nando Reis, Marcelo Fromer entre outros, porém não teve uma grande repercussão.

Como o quadrinho não era sua fonte de renda, tinha que buscar outros meios, focando somente o lado financeiro, que era o fator de ter que buscar trabalhos alternativos. Apesar dessas buscas, nunca teve empregos fixos que duraram anos, apenas coisas pequenas que o ajudaram a se manter durante um curto período, como: auxiliar de escritório, ajudante de cozinha em uma pizzaria, também trabalhou em uma papelaria atacadista, que pode ser comparada com o que a Kalunga é hoje.

Quando trabalhou na papelaria foi o lugar que mais se sentia em casa, além do chefe ser amigo da família, ele já sábia o gosto que ele tinha pelo desenho. Então sempre que possível lhe cedia folhas novas de todos os tipos e materiais para desenho. Isso lhe deu oportunidade de “experimentar” e ver quais eram os materiais que ele mais se familiarizava, foi algo que impulsionou a ter mais vontade de seguir em frente.
Marcatti jamais se imaginou fazendo outras coisas, porém sempre teve que “trabalhar nas horas vagas” como ele mesmo diz, pois o quadrinho nunca lhe sustentou.

Em 1978 entrou no SENAI e foi fazer escola de Artes Gráficas, lá aprendeu processo de impressão e uma porção de coisas ligadas ao assunto. O curso despertou muito interessou a ele, pois quadrinhos têm que ser impressos, então todo aquele aprendizado começou a lhe estimular. La foi o lugar onde aprendeu muito sobre a produção gráfica, diagramação e tudo que envolve a produção de um material impresso, aos poucos foram se envolvendo nessa área e começou a trabalhar com diagramação de jornais, revistas de pequenas tiragens. Não trabalhou na grande imprensa, seus trabalhos eram mais com jornais de bairro, mas era algo apenas que lhe rendia um retorno financeiro, mas nunca foi seu foco como profissional.

Como teve o início de sua carreira bem no auge da ditadura militar, o que mais prejudicava era o medo, ninguém mais sofria com medo de bandidos, “nós temíamos a polícia”, várias vezes ele foi abordado pela polícia. Como ainda era jovem, não sofreu repressão nenhuma pelo seu trabalho, pois ainda não tinha repercussão nenhuma, mas os quadrinhos não eram uma coisa tão contundente politicamente.

No tempo do SENAI por ter tido contato com os sistemas de impressão – por que não era fácil produzir uma revista, era muito caro – então começou a ver a possibilidade de ter sua própria “grafiquinha” em casa. Na época não havia nem completado 18 anos de idade, mas quando completou 18 anos recebeu uma herança, dinheiro que chegou a boa hora, com isso ele consegue comprar uma impressora F7 de mesa. A partir dai pode ter sua própria gráfica em casa, humilde, mas que conseguia produzir as suas revistas, nascia a Editora PRO-C, que produziu todos os seus quadrinhos.

Uma das coisas que Marcatti só foi mudar anos depois, foi que, nunca teve um personagem fixo, sempre fazia histórias de aventura única, não era algo que tinha continuidade. O forte de suas histórias era a contestação social, o fato como todo. No período em que comprou a maquina e já estava com sua Mini Gráfica funcionando, ai sim começou a produzir muita coisa, se viu na situação de ter que começar a vendê-los.

No período de 80 até 85 ele produzia tudo independente e fazia uma jornada, então pode se dizer que nesse curto espaço pode “viver” de quadrinhos. Sua jornada começava bem cedo, como sempre teve enorme apoio de sua esposa. De manhã cuidava dos filhos, fazia almoço e lavava roupa, quando sua esposa chegava do seu trabalho, ai sim começava a produção. Desenhava na parte da tarde e a noite saia pra vender as revistas, todos os dias. Costumava fazer suas vendas na região do Bixiga, havia muitos bares e era um grande encontro de atividade cultural na época, tinham muitos cines clubes, cinemas alternativos e etc. Fazia isso sempre sozinho, abordando as pessoas e vendendo o material de mão em mão. Nunca foi algo que trouxe lucro, porém conseguia vender cerca de 1000 exemplares em dois meses, já era alguma coisa, uma verba muito útil para sua família.

O mais gratificante dessa rotina era que, como sempre teve um amor pela arte, era algo muito prazeroso para ele. Um escritor não vê o rosto das pessoas que leem seus livros. Como a maioria dos quadrinistas fica em casa desenhando, ele não tem contato com o seu público, seu livro é publicado, pode ser sucesso ou não, mas não tem contato direto com nenhuma pessoa. Para ele o legal de poder divulgar seu próprio material, era poder entrar em contato com as pessoas que consumiam seu trabalho, pegavam direto de suas mãos. Com isso pode fazer muitas amizades e criar alguns fregueses fiéis que lhe cobravam novos materiais. Mais tarde foi conhecer pessoas que compravam seus gibis, na época com grande frequência, um deles é o Fernando Gonzáles, que faz o Níquel Náusea na Folha de São Paulo, que dizia: “antes eu ia ao Bixiga de vez em quando, quando vi que o Marcatti estava vendendo os gibis dele, eu ia com mais frequência pra ver se tinha coisas novas”, como se ele fosse uma banca de jornal ambulante.

Mesmo produzindo muito, tendo a liberdade que só o underground oferecia aos jovens, ainda vivia uma enorme tensão por causa da ditadura militar. Marcatti era sempre abordado pela polícia, uma vez se safou de um espancamento coletivo dentro de um ônibus. Estava seguindo em direção ao centro, quando passaram ao lado de uma manifestação de estudantes, alguns estudantes correram para dentro do coletivo, mas não adiantou nada, os militares espancaram os jovens de forma bruta, Marcatti como era mais jovem foi abraçado por uma senhora de idade que disse que ele era seu filho e estava indo à igreja. Trabalhar com arte naquela época era algo complicado, principalmente quando não era algo feito para grande massa.

Marcatti sempre teve um enorme apoio de sua esposa, que o motivou a continuar com seu trabalho, ajudando ele em todas as ocasiões e estando presente em todas as suas conquistas, com esse apoio ele não precisou diminuir a quantidade de quadrinhos que produzia por conta do casamento. É casado com Fátima Pires (Tata) há quase 25 anos, ela nunca teve muito interesse em ler suas histórias depois de pronta, pois participa com ele em todo o processo de criação, roteiro, as mudanças, discutem para deixar da melhor forma possível.

Ao longo dos anos teve várias conquistas, passa a ser nacionalmente conhecido quando faz a capa do disco “Brasil” 1989, da banda de hardcore/punk Ratos de Porão, quando a banda estava com uma grande visibilidade. Com a boa repercussão do primeiro desenho para banda é convidado a fazer outra capa. Dessa vez capa do disco “Anarkophobia” 1990, que se tornou um clássico e revolucionou o rock pesado naquela epoca.

Apesar de o quadrinho ser algo sempre presente em sua vida, ao passar dos anos foi tendo algumas ocupações que lhe davam muito prazer e até um retorno financeiro. Um amigo uma vez lhe disse que para desenhar algo é necessário saber como aquilo é feito. Marcatti sempre teve esse vício de querer saber como funcionam as coisas. Esse estímulo faz com que ele se interesse por outras atividades. Desde jovem sempre gostou de tocar guitarra, então ele pegava sua guitarra e desmontava ela toda, anos depois também começou a construir instrumentos musicais, focados mais em instrumentos de corda, sempre nas horas vago, e claro, nada convencional.

Tudo que faz nunca é focado em ter um retorno, porém sempre acaba pingando um pouco aqui e um pouco ali, como ele mesmo diz. Além das guitarras, hoje está com um trabalho novo de restauração de carros antigos, isso nas horas vagas, pois continua sendo um quadrinista. Na imagem a baixo, um pouco do trabalho dele com restauração de carros antigos.

Em 2001, criou e desenvolveu o personagem FRAUZIO para uma revista mensal. Seu primeiro personagem ao decorrer de toda sua carreira. A revista foi lançada pela Editora ESCALA, com tiragem de 30.000 exemplares e distribuída em bancas de jornal de todo Brasil. Em 2003, publica quatro edições da revista Desventuras de FRAUZIO pela Editora PRO-C.

Com seu traço marcante e conteúdo fortemente voltado ao escatológico, Marcatti é considerado o mais importante autor de quadrinhos underground no Brasil. Sempre muito respeitado pelas pessoas que estão por dentro desse circuito. Hoje ele continua escrevendo roteiros, desenhando muito, mas continua trabalhando nas horas vagas, com a produção de peças para os automóveis e criando ótimos instrumentos musicais.

Uma foto tirada na casa de Marcatti em Junho de 2010 com alguns de seus diversos trabalhos. Uma guitarra com corpo de esqueleto com o desenho feito de forma artesanal, que estava em andamento ainda, mas com essa imagem já se percebe o auto grau de qualidade.

Nota: Uma matéria semelhante foi publicada recentemente na Revista Vice. Essa entrevista foi feita há um ano e meio e publicada em blog pessoal, editada agora para o Sujeira.

Para mais Informações: http://www.marcatti.com.br

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