“São três décadas dedicadas ao Underground”, Entrevista com Boka (Ratos de Porão)

Banca da Peculio @ Hangar 110 - Foto por: Mateus Mondini

Boka, figura carimbada do Underground nacional. Neste post uma entrevista curtinha sem entrar em méritos de sua vida pessoal, apenas focando curiosidades e feitos no underground. Baterista da lenda do hardcore nacional Ratos de Porão, já passou bandas como Psychic Possessor, I Shot Cyrus e é dono do Selo Peculio Discos.
A conversa foi bem tranquila, respondendo algumas curiosidades e com bastante senso de humor. Boka está presente na cena independente a mais ou menos três décadas, continua sendo assíduo frequentador de shows grandes e pequenos, apoiando a cena hardcore DIY sempre. Se você nunca ouviu falar nesse cara, dê uma lida na entrevista e depois vai atrás dos discos do Ratos e do seus outros projetos.

Sujeira: Queria começar com uma curiosidade, completando 30 anos de banda, você escuta o mesmo tipo de som que ouvia há anos atrás ou os ouvidos ficaram mais sensíveis e não tem tocado tanto barulho no seu som?

Boka: Cara eu ainda escuto de tudo, tenho a cabeça um pouco mais aberta até, mas basicamente minha escola continua sendo Thrash Metal, Heavy Metal, Crossover, Punk e Hardcore. Também escuto Rock N Roll 70’ e um Jazz.

Sujeira: Depois do Lançamento do DVD (Guidable) que conta a história da banda, rolou um retorno legal do público, gente nova interessada na banda?

Boka: Nossa, o retorno do documentário foi muito bom, pois conseguiu atrair o interesse dos fãs do Ratos de todas as fases, que com certeza são um pouco diferente, gente nova interessada é difícil ter uma relação direta, mas nos shows sempre colam,uma galera misturada com os fãs mais antigos.

Capa do DVD Guidable, que conta a história da banda.

Sujeira: Apesar do Ratos ter um público fiel, com o passar do tempo lançando material mesmo que não seja de inéditas, sente uma renovação no público, moleque novo indo atrás da banda e tal?

Boka: Eu não consigo ver uma relação de renovação com o Ratos, acho que uma banda como a nossa história e legado vai sempre atrair gente nova que começou a curtir som agora, mas continuam aqueles que já curtiam. Por exemplo: A gente vê pessoas de 14-15 anos de idade usando camisetas do Dead Kennedys, Black Flag, Cólera, Discharge e RDP, então se for por ae, vemos uma renovação.

Sujeira: Fazendo uma comparação com “ontem” e hoje, existe alguma coisa que você olha pra trás e fala “Nossa, como isso faz falta” ou “Antes era melhor por causa disso” em relação a tudo no circuito musical que a banda vive e viveu. (Por quê?)

Boka: Eu não curto nostalgia, porém minhas três décadas dentro do hardcore me fizerem ver de tudo e ter minha opinião sobre cada fase. Eu acho que tudo é diferente, 25 anos atrás a paixão era diferente, muito mais intensa, as pessoas valorizavam mais as coisas, isso era muito bom, porém mesmo assim não existia a leva de informação, discos e shows que temos hoje. Então é somente diferente, podemos tentar abrir os olhos de muita gente com nossa experiência e mostrar que temos que encontrar um meio termo parar continuação do underground, dar relevância mesmo! Como dizia uma música do Sick Of It All: “Velha guarda, nova guarda, não tem importância se seu coração e sua atitude for verdadeira”

Psychic Possessor - 1989 @ Uma das primeiras bandas de hardcore da baixada santista.

Sujeira: O Ratos tem letras que em sua maior parte acabam fazendo mais sentido para o povo Brasileiro, em meio várias turnês pelo mundo já rolou uma identificação e troca de ideia com a galera de fora (mesmo que seja América do Sul)?

Boka: Com certeza, muita gente pergunta sobre as coisas que estão nas letras, sempre conversamos com as pessoas e acabamos informando e abrindo a cabeça de muita gente sobre a situação sócio-política-econômica do nosso país e do 3º mundo de forma geral.

Ratos de Porão na Europa, em uma de suas muitas turnês pelo velho continente.

Sujeira: Você acha que enquanto tiver saúde e fôlego não vai parar nunca com a banda? Já passo pela sua cabeça se aposentar do barulho?

Boka: Sim, na verdade parar com o Ratos é um pensamento que eu já tive várias vezes, mas acho normal, pra qualquer pessoas fazendo algo por 21 anos (que é o meu caso), por outro lado a banda é grande parte da minha identidade e não gosto muito da ideia de não fazer mais parte disso, porém quando acontecer é preciso ter maturidade e aceitar tocando a bola pra frente, engraçado é que sempre quando penso nessas coisas alguém me para na rua pra me elogiar, falar da banda e expressar o quanto somos importantes para o underground.

Ratos de Porão - foto promo 2011

Sujeira: Em todos esses anos tocando no Ratos, além das outras bandas que tocou em Santos certamente você já viu muita coisa “nascer e morrer”. Como você vê o cenário da música pesada aqui no Brasil (bandas, shows, selos e etc.) atualmente?

Boka: Cara eu acho que os últimos 10 anos são um sonho, tudo que sonhamos se “realizou”, bandas, saem discos, bandas de fora tocam aqui, tem shows direto, não existe muitas tretas em shows. Não estou dizendo que hoje é perfeito, mas acho que as coisas estão legais se tratando do cenário.

I Shot Cyrus @ Arapongas Paraná 2007

Sujeira: Você que pegou uma fase onde os jovens ainda não tinham acesso à internet, você acha que ela é indispensável hoje ou ela trouxe alguns males junto com a praticidade? 

Boka: Sim, sem sombras de dúvidas a internet tem mudado todas as relações humanas, estamos ainda em uma transição, não sabemos onde vai parar, mas já posso colocação sim, alguns males estão bem latentes devido essa praticidade descomunal.

Sujeira: Vender CD no Brasil tem sido uma meta difícil de alcançar tanto para bandas quanto para os selos. Pra você que tem um selo e que já lançou bastante material, existe alguma saída ou alternativa hoje em dia em sua opinião que não seja parar de lançar material?

Boka: O interesse diminuiu muito, as vendas caíram, não é possível pegar uma banda nova e investir cinco mil reais e fazer mil cópias pra vender, com certeza mais da metade vai ficar com você. O que rola muito hoje são os selos dividiram o lançamento, a conta fica menos pesada e é mais de espalhar o material, mas sinceramente o momento para bandas novas está muito ruim, já as que têm um público cativo fica ainda Ok pra se trabalhar.

Selo Peculio Discos!

Sujeira: Queria que você citasse alguns discos de Punk que mudaram sua vida, na sequência queria que você citasse os discos mais inusitados que você escuta, aqueles que o fã padrão de Ratos vai ficar de cara e falar “Não acredito que ele escuta isso!!!”

Boka: Cara com certeza os discos que mudaram a minha vida foram todos relacionados ao crossover dos anos 80, tanto inglês como americano. Discos do Heresy, Napalm Death, Corrosion of Conformity, Attitude Adjustiment e etc. Esses discos acabaram comigo de vez.
Hoje em dia eu escuto muito Jazz, nomes como Monk, Miles Davis, Blakey, Roach, Coltrane e etc. Mas também estou sempre na barulheira de Converge e Brutal Truth.

Sujeira: Agora você tem espaço pra divulgar seus projetos e mandar um salve e falar o que quiser, valeu mesmo Boka!

Boka: Cara eu é que tenho que agradecer pelo espaço, te parabenizo pela iniciativa, não quero dizer muitas coisas, somente que não existe melhor lugar que o hardcore. Faça Você Mesmo e sinceridade sempre!

Para mais informações: Peculio Discos

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5 respostas em ““São três décadas dedicadas ao Underground”, Entrevista com Boka (Ratos de Porão)

  1. a última foto com a legenda: I Shot Cyrus – Marília Interior de São Paulo 2007. esta errada. essa foto é: I Shot Cyrus em Arapongas Paraná 2007. com Refutare, CVOD.

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