Paura conversa com o Sujeira e fala sobre a nova fase da banda

Foto promo - Formação nova @ Foto por: Wander Willian

Paura já tem um bom tempo de estrada sempre representado por 5 integrantes, os caras apostaram durante todos esses anos na mistura entre Metal e Hardcore. Influênciados por expoentes de ambos os estilos os caras nunca deixaram a desejar se tratando de competência, técnica e energia. O primeiro  disco foi lançado em 1996 “Family Trust”, nessa época já mostravam que estavam a frente quando se tratava de tocar hardcore, se mantendo antenados com o que rolava no exterior, sem aquele ‘delay” comum no Brasil e paises mais afastados. Sempre que converso com alguma pessoa que frequentou shows nos anos 90 é certa a resposta de que os caras eram os favoritos da época.
Uma coisa é fato, a banda fez parte e são extremamente importantes na história do hardcore nacional, nessa entrevista abordamos a nova fase da banda, planos, mudança de formação (coisa que já estão bem calejados) e assuntos relevantes que  não se remetem a nenhuma nostalgia.

Sujeira – A banda mudou de formação no final do ano passado mais o menos, foi algo conversado e esperado ou foi tudo de surpresa, como foi à saída do ex batera Henrique?

Rogério – Foi algo esperado a partir do momento que você percebe tocando que as coisas já não fluem tão naturalmente assim. Algumas atitudes nos levaram a essa mudança. Voltamos, na medida do possível, a nossa origem.

Fabio – Pra mim, foi inesperado porque tinha 20 dias que tínhamos voltado de uma turnê europeia e tínhamos 2 shows marcados pra menos de duas semanas. Mas que as coisas já não andavam bem com ele na banda, isso é fato.

Caio – Ao longo do tempo, nosso convívio com o Henrique foi ficando muito desgastado, e isso também se refletiu musicalmente. Enquanto todos na banda queriam dar um direcionamento mais cru e direto no som, ele estava numa pegada mais técnica, mais metal. Então a saída dele acabou sendo natural.

Sujeira – Vejo nas fotos de vocês que tem escutado muita coisa relativamente nova (pelas camisetas) se tratando de hardcore, vocês tem costume de ir atrás das bandas novas (garimpar e tal)? Isso acaba influenciando nas novas composições?

Rogério – A gente sempre pega uma coisa nova aqui e ali. Hoje isso basicamente vem dos contatos/amigos na internet mesmo. Acaba influenciando se for algo que achamos realmente energético/interessante para a nossa música. Daí nós temos um bom mix disso tudo com as nossas influências dos anos 80/90.

Caio – Quando você compõe, não tem como escapar do que você está ouvindo no momento, inclusive as bandas novas.

Fabio – Não dá pra ficar só preso aos clássicos do passado. Carrego essa ‘ânsia’ de descobrir bandas novas desde que comecei a escutar som. É algo que faz bem, saca, ver que sempre tem renovação, sangue novo, com conteúdo, eu acho importante e é um sentimento legal acompanhar isso por tanto tempo. E uma coisa ou outra acaba influenciando.

Foto por: Wander Willian

Sujeira – Queria que vocês comentassem a escolha do novo baterista Fernando Schaefer, os “porquês” de ter escolhido o cara, como tem sido a recepção dele dentro da banda em relação a galera que curte o som de vocês?

Caio – A recepção tem sido bem positiva. O Fernando agrega muito musicalmente à banda, e na parte da correria, o que é muito importante também.

Rogério – A escolha foi meio lógica no que tange a musicalidade da banda. Eu era vizinho do Fernando quando ele morava na Aclimação e a partir dali começamos a manter um contato, sempre trocando idéias/informações sobre hardcore. Uma vez surgiu a oportunidade de show para o Paura e o antigo baterista teria algum outro compromisso. Daí ele me falou para passar um setlist que ele deixaria tudo tirado e assim que precisasse a gente daria um toque nele. Na verdade nunca rolou. Mas agora aconteceu definitivamente e ele está bem na banda, integrado. Fizemos 3 shows com ele, sendo que o primeiro fora 6 dias após a saída do antigo. A receptividade foi boa. Ele já é uma figura conhecida no meio e um músico acima da média.

Fabio – E foi o primeiro cara que se dispôs a nos ajudar quando ficou sabendo que estávamos sem baterista. Tirou 8 sons em uma semana e conseguimos fazer os shows agendados que, à priori, cancelaríamos.

Fernando Schaefer em ação @ Foto por: Wander Willian

Sujeira – Vocês tem ido sempre à Europa tocar, queria saber isso é consequência da escassez de eventos legais aqui no Brasil ou tem algum outro motivo? Pra completar queria saber os aspectos positivos e negativos da cena lá de fora.

Rogério – Não seria esse o motivo. Mas sim o de ser mais viável se fazer uma “tour” de verdade na Europa do que aqui no Brasil. Estamos, infelizmente, a milhas de distância disso por aqui ainda. Poder alugar uma van e sair viajando e tocando por 30 dias, se bancando, esse é o motivo. Os aspectos positivos são a condição e o respeito que se tem para tocar na Europa, agora quase que inteira, pois o lado leste evoluiu bastante também. O respeito das pessoas é absurdo. Claro que como em todo lugar do mundo existem modas e tudo mais e por lá, em alguns lugares, não é diferente. Isso dentro do cenário hardcore mesmo. Mas é a velho chavão, quem está na parada, você encontra novamente mesmo depois de alguns anos. Agora os modistas, esses são de 1 ou 2 verões.

Fabio – É foda porque já fomos pra lá três vezes e ainda tem muita coisa a ser explorada por nós lá. A abrangência do circuito é muito grande na Europa. Desde os grandes festivais até as pequenas gravadoras, tudo tem sido estruturado há muito tempo e isso deixa muitas portas abertas. Desde 2008, quando fomos pela primeira vez, temos aumentado nossa base de amigos e isso vem facilitando muito.

Caio – Como meus comparsas bem falaram, é mais pela questão que lá existe um circuito, uma estrutura onde você pode fazer shows praticamente todos os dias, enquanto aqui no Brasil, não. Além disso, na Europa, a cultura do hardcore e da música pesada é muito mais difundida do que aqui, e sentimos que temos algo a acrescentar lá e que a galera vai apreciar o nosso som.

Paura ao vivo no Festival Open Hardcore Fest na Polônia em 2010

Sujeira – Como vocês que tocam a muito tempo vêem a cena underground hoje aqui, espaço pra música pesada, hardcore e suas vertentes, tem espaço realmente pra isso? 

Rogério – Complicado. Acho que tem alguns espaços, mas não temos muita consciência do cenário. Temos muita segregação de estilos, política, religião dentro desse suposto “cenário”. Isso dificulta o desenvolvimento da coisa toda. Têm aparecido muitos “produtores” equivocados que acabam prejudicando tudo também.

Fabio –  Espaço pra todo mundo sempre teve, e sempre terá. Mas é bem isso que o Rogério disse. E, só completando, quando a vaidade é o maior motivador de alguém num cenário, tudo se fragiliza conforme esse alguém segue sendo ‘referência’. Quanto mais tempo as coisas caminham desse jeito, mais fragmentado fica o cenário musical.

Caio – Concordo com os caras que tem espaço, sim. E que o desenvolvimento da cena depende de união das partes que ela é composta. Velho clichê, mas que ainda todos temos que aprender a colocar em prática.

Sujeira –  Musicalmente falando é difícil não notar que o Paura é uma banda muito técnica e bem acima da média nacional, vocês levam o lance de tocar bem a sério até que ponto? Isso pode ser um dos motivos de várias mudanças de formação ou nada a ver?

Rogério – Eu não levo tão a sério assim. Já fiquei mais em cima da guitarra do que hoje. Como escutei sempre de tudo, isso me ajuda na hora de compor e me localizar. As mudanças geralmente se deram por algum motivo pessoal, nada relacionado à técnica musical.

Fabio – Pode crer. Nunca houve uma mudança de formação no Paura por causa do lado da musica. Sempre aconteceu por influência externa.

Caio – Eu também nunca fui muito encanado com esse lance de técnica. Sempre valorizei mais a musicalidade, e a “pegada”. Como a gente toca há bastante tempo, e tendo bastante referências de som também, isso se reflete na música. Você comenta sobre uma “média nacional”. Uma coisa que acho é que na questão “técnica” as bandas brasileiras ainda devem um pouco pras bandas gringas, principalmente pela falta de estrutura e acesso comparado ao que eles têm lá fora. Mas, com a difusão da internet e outros fatores isto tem mudado, estamos cada vez mais perto deles neste aspecto técnico.

Rogério tocando com Paura no Inferno Club

Sujeira –  Queria saber o que vai rolar em 2012, planos futuros de disco novo, clip e etc.

Rogério – 2012 o mundo acaba…hahahaha
Estamos gravando quatro músicas para um sete polegadas que vai sair pela Definite Choice Records. Estamos pensando em um clipe de algum som desse compacto, mas ainda não é certo. Tour na Europa em agosto. Algumas datas agendadas para o sul do país também. Mais do mesmo. Apenas mais e mais. Tocar, tocar e tocar.

Caio – É isso aí, e tudo no DIY, porque é assim que tem que ser.

Fabio – 2012 é ano do centenário do Santos Futebol Clube….hahaha

Clipe da música No Hard Feelings?! Fuck You! lançado em 2010

Sujeira –  Alguém da banda tem outros projetos? 

Rogério – Eu não.

Caio – Eu também não.

Fabio – O Cris (Bandanos) me chamou pra cantar no Mandibulla, que é uma banda que ele queria montar fazia anos e nunca tinha rolado. Dessa vez, ta rolando legal…hehehe. A banda ainda conta com o Cleiton (Travolta Discos) e o Thiago (Still X Strong) nas guitarras, o Helder (Bandanos) na batera e o Cris no baixo. E o Fernandão toca em uma porrada de bandas além do Paura.

Sujeira – Gostaria que citassem coisas que ao seus olhos são possíveis na cena nacional, porém não são aplicadas, algo simples que poderia melhorar, mas muitas vezes passam batido (qualquer coisa)
.

Caio – Acho que nós, como banda, poderíamos ter mais mentalidade de “turnês”, fazendo como um “pacote” de bandas nacionais, parecido como fizemos com o StillxStrong. Vejo que assim o circuito fica mais fortalecido, podendo rolar shows sempre nos mesmos lugares, em cada cidade, e mais bandas poderão fazer o mesmo. O público também tem que ter uma mentalidade de apoiar as bandas locais, comparecendo aos shows e comprando merch, não só das bandas internacionais.

Fabio – Uma coisa que eu acho que é bem simples e cabe pra todo e qualquer promotor de show de qualquer lugar do Brasil: rango pra banda. Em qualquer evento mesmo, de periferia ou clubes badalados. Um promotor não gastará 20 reais em uma macarronada simples, que alimentaria banda e equipe (vegan ou não) e isso faz uma diferença brutal pra quem ta na estrada. É um lance simples, mas que entra nessa idéia de RESPEITO.

Rogério – Respeito em qualquer aspecto.

Sujeira –  Espaço pra mandar uma mensagem ai, gostaria de pedir pra citar bandas que vocês gostam, nacionais e internacionais que valem a pena pra galera conhecer (qualquer estilo)

Rogério – Acho que tem muita coisa legal acontecendo no cenário daqui. Muitas bandas daqui são milhões de vezes melhor que bandas de fora. As pessoas deveriam se importar com isso e ajudar de qualquer maneira. Seja indo a shows, trocando uma idéia com alguém de qualquer banda, comprando discos e/ou merchandising, se informando sobre tudo e sobre o que realmente lhes interessa. Estamos sempre por ai. Se não nos nossos shows, nos shows de bandas amigas. Sempre dispostos a conhecer novas pessoas e novas idéias.
Bandas nacionais: Still X Strong, Test
Bancas internacionais: All Pigs Must Die, Abhinanda

Fabio – Assino embaixo o que o Rogério falou. E pra quem ainda não conhece, além das já citadas pelo Rogério, eu recomendo:
Like A Texas Murder, Final Round, Oitão e Bayside Kings (Nacionais).
Cerebral Ballzy, United Blood, Black Breath, Coke Bust, Alpinist e pra namorar, os 2 eps do Crosses do Chino Moreno (Deftones)…hahaha.

Caio – União é um clichê que é falado, mas muitas vezes não é aplicado na nossa cena. Temos que ter humildade para descermos do pedestal do nosso ego, e respeitar a individualidade alheia. Querer impor regras ou esperar certo tipo de comportamento beira ao ridículo em um meio tão à margem da sociedade, um dos poucos lugares em que podemos expressar a nossa liberdade.
Nacionais: Ralph Macchio, Bullet Bane, Blackjaw
Internacionais: Alpha & Omega, For the Glory
Valeu aí Sujeira pelo espaço, tamo junto!

ESCUTE AQUI

Anúncios

3 respostas em “Paura conversa com o Sujeira e fala sobre a nova fase da banda

  1. Pingback: PAURA lança documentário sobre a última turnê europeia | Sujeira WebZine

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s