Sujeira conversa com Lucas Valente sobre Arte, Underground e suas “contradições”.

Lucas Valente

Lucas Valente

Trocamos uma ideia com Lucas Valente essa semana. Lucas tem 28 anos, nasceu na cidade de santos, trabalha com edição de Vídeo a alguns anos, abandonou o escritório faz pouco tempo, mescla seu tempo com o trabalho de edição formal (base de sua renda) com captações e edições com vínculo a cena alternativa (Dvd’s de bandas, vídeo arte, clips de bandas). Além disso tem se focado em projetos de arte mais obscuros. Colagem, Exposições, Fanzines e etc. Nós perguntamos suas influências, alguns questionamentos, como é estar no underground, as pretensões que existem dentro desse meio, interesse, possíbilidades que são apresentadas e muito mais. A conversa não foi muito longa, mas foi bem produtiva, dando uma boa noção pra quem não conhece o trabalho do cara conhecer, essa entrevista é bem válida para apreciadores de arte que estão por fora do circuito alternativo que vem se formando, poder se interar e abrir os horizontes. Caso alguém tenha interesse em conversar com o Artista, entre em contato com o email do Sujeira, leia e compartilhe ideias.

Sujeira – Quando começou seu interesse pela arte?

Minha mãe era artista plástica, mas havia parado de produzir para cuidar dos filhos, meu pai era jornalista que trabalhava muito pra trazer a grana pra casa, e eu era um moleque padrão criado na praia, então, pra mim arte era uma coisa mais ligada a mulher, coisa de menina. Depois, com 16, 17 anos, a gente tinha uma cena em Santos, e eu ia pra show todo final de semana, nessa época comecei a me ligar nas capas de discos e em 99 saiu o “novo” do Garage Fuzz, o Turn The Page, que tinha vários desenhos, umas parada desconexa do hardcore pra mim na época, junto com isso vi que o “songs about week here…” do Againe, tinha uns desenhos também na parte de traz, e os créditos das artes era dos caras da banda, ai comecei a prestar atenção, eu ia na loja de disco do farofa lá, e lá via vários desenhos, pela cidade também via que o farofa tava colando e desenhando, ai comecei a pensar que grafite não era só hip hop e que arte não era coisa de menina, o hardcore abriu minha cabeça machista pra isso. Quando eu era moleque eu pixava, então um pouco mais velho resolvi que queria fazer isso também, foi uma continuidade, comecei a fazer zine, retomei o desenho que estava parado, pesquisar, me interessar. Na época estava começando a escutar uns sons das bandas da Jade Tree (gravadora), e essas estética das capas de disco, anúncios também foram foda, tinha um zine punk argentino que saiu na época com uma matéria sobre arte e rock e isso também mudou minha cabeça, lá a parada já era mais esclarecida, os argentinos já tinham uma ideia de ser artista e trabalhar com arte bem resolvida, sem ter medo de ser artista. É difícil dizer que é artista, ainda mais se tu vem do meio punk ou da rua que seja, que tu sabe que se falar sobre arte ou disser que é artista vai ser cobrado por isso. haha


Sujeira – Oque você enxerga como underground?

Underground é um ambiente independente da grande mídia, fora de padrões culturais e modismos, esse é o conceito. Hoje em dia a internet tirou a força da grande mídia e está tomando o lugar dela aos poucos. Acho que com a revolução internet, daqui poucos anos o conceito de underground vai ser tudo que o Google não conseguir enxergar, tudo aquilo que estiver na deepweb, mas isso é papo de louco…

Lucas Valente

Lucas Valente

Sujeira – Eu sei que você já tem um trabalho com vídeo faz tempo, mas o que fez ir pra o papel?

Sempre desenhei, mas meio cuzão, com medo, aos poucos fui pondo os desenhos em zines, videos, na rua. O papel é um desafio maior porque não dá pra mentir, se você não tem muita técnica que é o meu caso, você desenha o que você é, não dá pra enganar, não tem “Control Z”. O que me faz querer ir cada vez mais pro papel é esse desafio de bater de frente consigo mesmo, que nem terapia.

Vídeo Art

Vídeo Arte

Fanzine com texto, imagens e cd com vídeos.

Fanzine - Texto, imagens e cd com vídeos.

Sujeira – Eu percebi que os seus trabalhos sempre tem um questionamento pessoal ou do mundo, o que influencia isso?

Porra, beleza por beleza é legal, mas gosto de conversar, pra mim a beleza é importante, mas tá lá pra quinto lugar de importância num trabalho, to mais interessado na sinceridade, na discussão.

Informação/Desinformação

Informação/Desinformação

Sujeira – A gente sabe que existe um senso comum que coloca a arte em patamar de elite, como vê essa visão e o que pode dizer pra afirmar que isso é um erro

Tem um artista alemão chamado Joseph Beuys que diz que “Todo mundo é artista” e se você olhar no dicionário, arte é tudo aquilo que o homem produz. Uma obra de um artista da Bienal pode ser um “privilégio” de uma minoria, de uma elite milionária, mas isso não é tudo que existe, estão aparecendo cada vez mais galerias pequenas e artistas com pé no chão.
Sujeira – Eu te conheço pessoalmente e sei que o hardcore foi sua escola, queria saber se isso influencia até hoje nos seus trampos?

O hardcore tá no trabalho de arte que nem tá no dia a dia, na vida, não dá pra fugir. Na arte ele aparece no proceso, eu to produzindo algo ai já vem o hardcore cobrar: “Porque você tá fazendo isso? Será que isso é de verdade mesmo? O que você realmente acha disso?” A escola do hardcore fez eu tentar pensar por mim mesmo, questionar padrões, verdades impostas. Isso aparece nos trabalhos, por isso sempre coloco umas frases, é meio que uma conclusão de todo esse questionamento que tive durante o processo. Eu sei que o trabalho está pronto quando eu já sei o que quero dizer, antes de começar muitas vezes eu só tenho uma breve noção. Da musica sempre vem uma frase, uma ideia também, que acaba no trabalho, por que é o que está mais perto.


Sujeira – E a Lowtown? O que é, que trabalhos fez?

A Lowtown é uma produtora de vídeos que trabalha com bandas e artistas independentes, fizemos um documentário pro DVD do Garage Fuzz , DVD do Boom Boom Kid, Mukeka Di Rato, Laja 100, Clipes, etc. To dando uma força agora pra um projeto de video do Diogo Disturbios, relacionado a musica também.

Lowtown

Lowtown

DVD Boom Boom Kid

DVD Boom Boom Kid

Sujeira – A gente sabe que muita gente força a barra dentro do punk com o lance de ser anti-arte, mas no sentido literal da coisa, não como um movimento de arte, você tem uma opinião sobre isso, essa herança hater que o hardcore/punk deixou?

Tem punk que é anti-trabalho, anti-arte, anti-sexo, anti-umapádecoisa. Pra mim o punk é uma cena de liberdade, que cada um pode ser você mesmo e foda-se, então tem muita gente que fica encanada com essas “regras” do punk e acaba esquecendo de pensar por si próprio ou se boicotando de fazer alguma coisa, de ter um trabalho, fazer um desenho, colar numa balada, o que for, só porque é punk. O Crass era um role de arte e a musica era só uma parte disso, tinha os vídeos, os desenhos. Mas por outro lado, eu até entendo que essas pessoas não sejam a favor, não é fácil entender arte, assim como não é fácil entender o punk.  No meio da arte tem muita merda, tipo idolatria e pagação de pau pro artista que às vezes é visto como um ser superior, e o punk tem isso de querer matar os ídolos, de não ter idolatria. Do jeito que eu vejo, o artista tem o mesmo valor que um pedreiro, um médico ou qualquer outra pessoa. Hoje em dia a arte é mais democrática e de uns anos pra cá “todo mundo é artista” e às vezes parece que ninguém tem nada para dizer, então às vezes parece charlatanismo mesmo, alguns casos eu também acho isso, mas no geral é mais complicado que isso, tem muito mais coisa por trás, tipo, você já tentou explicar o que é o punk pra alguém com um estilo de vida totalmente diferente? Tu pode até tentar explicar, mas a pessoa nunca vai entender o que é de verdade. Com a arte é a mesma coisa, tu pode tentar explicar, mas é complicado de entender, só vivendo mesmo.

Não é fácil, mas é longe de ser difícil

Não é fácil, mas é longe de ser difícil

Sujeira – Falando um pouco sobre a exposição, como foi à escolha dos artistas? Qual foi a motivação de criar o projeto?

Quis chamar pessoas que eu curto o trabalho, que tem algo pra dizer, e que parte  dos meus camaradas não conhecessem. O fato de essas pessoas serem ligadas ao hardcore/punk foi só coincidência, isso não foi critério. A motivação é criar pontes, aproximar pessoas e rolês diferentes, mas com coisas em comum.

Exposição "Deturpação"

Exposição "Deturpação"

Sujeira – Queria que discorresse um pouco sobre os benefícios e malefícios de se trabalhar no underground, o que acha que pode ser aprimorado e etc.

O beneficio é não ter que trabalhar com um bando de babacas todo dia e poder ser você mesmo, entre uma porrada de outras coisas. Os malefícios é que as gerações anteriores usaram muita droga e tão muito lesadas pra trabalhar direito haha. Tem aquela ideia aqui no Brasil de que ter um selo, uma distro é pra se fuder, de que se trabalhar no underground vai só gastar grana. Isso é errado. Falta gente trabalhando sério e direito.

Sujeira – O que acha da pretensão de viver disso? Acha possível ter esse tipo de pretensão sem cair nas garras do mainstrean?

Por anos eu quis ter outro trabalho regular, para não comprometer a produção de arte, pra poder criar sem me preocupar em vender, pra ter o meu tempo, etc. Essa é uma questão foda. Eu quero em breve já viver disso, e cada vez menos trabalho com coisas não ligadas a arte. Existe uma pequena cena independente se formando, pessoas com o pé no chão, sem o deslumbre da arte da Faap, mas essa cena ainda não se sustenta, ainda falta muita coisa, espaço, mídia, a cabeça mesmo mudar.  Trabalho por essa cena, e se ela se pagasse, as pessoas conseguissem viver, viajar com o trabalho, num esquema punk mesmo, pra mim estaria ótimo. Gostaria de ver a cena se autogerindo sem precisar de governo, edital, prefeitura, o que for, mas a realidade não é essa.
Hoje tem, por exemplo, o Pexão, um cara que há anos tem uma galeria pequena e bem foda em Porto Alegre, fez um puta corre sério no underground e agora continua tocando a galeria pequena, mas abriu uma galeria branca mesmo, coisa grande, aqui em SP. Esse cara pegou vários artistas do underground, alguns vindo do Punk, tá representando essas pessoas, dando um gás e essas pessoas talvez possam agora depois de décadas se fudendo, ter um respiro econômico. O punk é tipo uma bola de ferro presa no seu pé que você carrega pro resto da vida, se o artista veio de lá e estiver vendendo um quadro por 20 mil reais, ele não vai pegar essa grana e comprar uma Mercedes, o cara vai fazer uma pista de skate, montar um selo, sei lá. O cara não vai cobrar 20 mil de um amigo, vai trocar ou dar o desenho.  É ótimo ter grana circulando nessas mãos. A arte visual pra mim não é como o skate ou o punk que quanto mais obscuro mais legal, é diferente, mas ainda não sei direito como ou por quê.

Sujeira – Pra finalizar gostaria queria que citasse as suas influências principais, sejam elas inusitadas ou não, dentro de tudo que está ligado a produção artística, seja música, vídeo, texto e imagem.

Influência é difícil falar, tem várias, não sou ingênuo, mas a parada pra mim é mais de colocar as coisas pra fora do que ficar pesquisando pra juntar elementos e montar uma formula que dê certo, então as coisas que influenciam são a praia, ter andado na praça, anos 90, roubado madeira na construção, shows de rock, vídeos e arte de surf e skate, capas de disco, art-xerox, papel rasgado, pessoas com mais de 40 anos que ainda usam boné e se mantem jovem. Tipo isso.

Colagens

Colagens

Sujeira – Manda aquele salve e a mensagem que quiser.

Valeu pelo espaço Xavero e Sujeira, essa foi minha primeira e melhor entrevista. Abs

Penultima semana da expo “Deturpação”, silk de adesivos “ASA”, Metade Melhor e Deriva ao vivo.

Sábado dia 17/03 às 16h

Flyer a mão por Carlos Dias - Sábado dia 17/03 às 16h

Esse final de semana segue a continuação da exposição “DETURPAÇÃO” na Loja Hotel Tees, porém dessa vez com alguns adendos. No sábado irão se apresentar duas bandas do cenário independente paulista, Metade Melhor e Deriva, além disso, vai contar com o Lançamento da camisa do artista Carlos Dias, que vai estar presente silkando diversos adesivos de sua autoria, da série de desenhos intitulados de “ASA”.

Mesclando como sempre o barulho feito pela juventude inconformada e a arte, que expõe todas as nossas emoções, não vejo diferença entre os dois tipos de atividade, apenas a forma como se aplicam. Qualquer tipo de pessoa que está envolvida com o underground de alguma forma, sugiro que compareça a exposição, mesmo que seja pra conhecer pessoas novas e apagarem essa imagem que muitos tem sobre a arte ser algo inacessível e burguês. Uma das coisas mais importantes do DIY é o poder de fazer as coisas que bem entender, sem pedir permissão a ninguém.

Trabalhos de Lucas Valente e Rael Brian

Exposição "DETURPAÇÃO" - Trabalhos de Lucas Valente e Rael Brian

As bandas que irão se apresentar nessa penúltima semana do evento tem total ligação á cultura alternativa e faça-você-mesmo. Metade Melhor é uma banda de Punk Rock influenciada pela escola do Grunge dos anos 90 somado com tudo de sujo que veio Post-Hardcore dos anos 80, seguindo a linha de gravadoras como SST, Dischord e etc. Deriva vai por uma linha mais experimental, andando ao lado de bandas como Fugazi, Minutmen, as bandas mais “tortas” dos mesmos selos citados acima. Ambas as bandas tem o Punk Rock como base de sua estrutura, se encontram e desencontram.

Escute Metade Melhor.

Escute Deriva.

Carlos Dias já é carta carimbada quando o assunto é arte e DIY, pra quem acompanha o trabalho do cara sabe que ele é idealizador do projeto troca de desenho, que é uma das iniciativas mais “punks” envolvidas com arte e ilustração. Como já foi citado acima, será o lançamento da sua camisa, que estará à venda no dia do evento, é limitada e só é possível de encontrar na Loja Hotel Tees em São Paulo. Os adesivos que serão silkados na hora serão distribuídos, é óbvio, mas vale ressaltar que só poderá adquirir os adesivos aquele que  marcar presença no evento ou se algum amigo guardar, caso contrário acho que não terá segunda chance (para esses).

Camisetas "ASA"

É isso, vale a pena comparecer e desmitificar essa ideia de que o lado mais obscuro do Rock não tem a ver com Arte. Compareça e compartilhe ideias, isso é o mais importante.
Agradecimentos aos idealizadores do projeto e o Cebola proprietário da Loja Hotel Tees, por ceder espaço e apoiar os artistas e as bandas do underground.

Sábado dia 17/03
Hora: 17h
Preço: FREE
Local: RUA MATIAS AIRES 78 / BAIXO AUGUSTA

Entrevista com Carahter.

Carahter certamente é um dos nomes mais emblemáticos do Hardcore/Metal underground mineiro. Se você acha que a fórmula Hardcore mais Metal está batida, provavelmente não conhece o Carahter, que faz essa mistura sem soar óbvio e de forma não cansativa, tarefa que muitas bandas do “gênero” nem sempre conseguem cumprir. Dez anos após o lançamento do disco “O Intenso desespero sobre a decadência humana” e passado por um hiato de aproximadamente cinco anos, a banda está de volta e com força total. Durante 2011 tocaram em diversos shows, dentro e fora de Minas Gerais, também entraram em estúdio e lançaram virtualmente três sons destes novos registros, que podem ser ouvidos aqui. Nesta entrevista Renato (vocal) fala com o Sujeira sobre o retorno da banda, mostra a sua percepção quanto ao circuito DIY europeu e comenta sobre os planos da banda.

Sujeira – Primeiramente gostaria de agradecer a você, Renato, pela entrevista cedida. Para começar, como surgiu a idéia de voltar a tocar com o Carahter? Quais foram os fatores que motivaram a volta da banda?

Renato – Cara, nós que agradecemos o espaço aqui, valeu demais pela oportunidade!

Mas então, em 2005 metade da banda se mudou para Los Angeles. A gente ia gravar o disco novo lá e todo mundo estava na pilha. Mas eu (Renato) tive uns problemas pessoais e não fui, nisso outra parte acabou voltando pra cá e ficou todo mundo separado. Com isso ficou tudo mais complicado e a coisa foi esfriando até que quando agente viu a banda tinha acabado.

Em 2010 estava já todo mundo de volta no Brasil e voltamos a encontrar. Agente gostava muito das coisas novas que agente tinha feito, já tinha muita coisa pronta mas nada gravado ainda. Nisso voltamos a ensaiar e a fazer mais musicas e aos poucos a coisa foi engrenando de novo.

Em 2011 resolvemos gravar 3 dessas musicas novas e voltamos a tocar também.

Sujeira – O circuito Hardcore/Metal é costumeiramente concentrado nas grandes capitais, principalmente em São Paulo (cidade onde nós do Sujeira vivemos) e em muitas vezes estes circuitos tornam-se restritos a bandas locais. Qual é a maior dificuldade em fazer este intercâmbio com outras regiões do Brasil?

Renato – A maior dificuldade é a questão financeira no final das contas. Viajar com banda sempre tem um custo grande de transporte, rango , etc. E todos nós trabalhamos e temos contas para pagar, então acaba que não podemos “perder” muita grana com a banda e não é todo show que consegue pagar as despesas. Então sempre fica naquele dilema, mas sempre estamos na pilha de tocar fora de BH e tentarmos fazer isso da maneira mais econômica possível pra poder viabilizar pra todo mundo

Sujeira – Vocês já sairam em turnê pela Europa, certo ? Quais foram as maiores diferenças, notadas por vocês entre a cena musical underground brasileira e européia?

Renato – Saimos sim, em 2004. Foi uma turnê muito foda, 33 shows em 13 países! Uma experiência marcante para todos nós. Acho que a principal diferença é a infra estrutura que o underground de lá tem. Toda a rede funciona bem, os caras que armam as turnês, as casas, o esquema de backline, de van, enfim, tudo funciona melhor e fica redondo no final das contas. Outra coisa que ajuda muito também é que lá tem uma cultura de ter show dia de semana, o que aqui no Brasil geralmente não funciona.

O público em si não é tão diferente daqui…tem lugar que a galera é mais “fria”, mas no geral todo mundo era bem interessado e pelo menos ouvia com atenção o show. Rola uma boa vontade com as coisas de fora.

Carahter no Kool Metal Fest. Foto por: Wander William

Sujeira – Comparado ao disco “O intenso desespero sobre a decadência humana” a banda passou por uma considerável mudança musical, a minha impressão é que o Carahter tornou-se muito mais denso, musicalmente falando, apesar disso a sonoridade não foi descaracterizada. Isto foi um processo natural ou essa mudança foi premeditada?

Renato – Foi um processo totalmente natural. A gente se orgulha muito do intenso desespero sobre a decadência humana, mas lá se vão dez anos! Hehe.

É tempo pra caralho…muita experiência vivida, muitas influencias novas, mas acho que as características principais estão também nas músicas novas, ainda que de maneira diferente. Mas as mudanças são sempre naturais, a gente não senta e fica pensando “vamos fazer uma música diferente agora”, as coisas simplesmente fluem desse jeito.

Sujeira – Quais são suas principais influências musicais ? Vocês tem alguma influência inusitada, digo, alguma influência que possa causar surpresa ao ouvinte padrão de Hardcore/Metal?

Renato – Cara, todo mundo da ouve muita coisa diferente. A gente se encontra musicalmente no Metal e no Hardcore, mas todo mundo tem influencias diferentes, então acho que isso tudo acrescenta ao processo de criação e composição. Mas pode saber que a gente ouve de tudo de The Police, a Pink Floyd , de Morrissey a Death, música instrumental, rap, enfim, é até difícil nomear pra não ser injusto com o gosto de todo mundo! hehe

Sujeira – A banda possui outras influências não musicais que de alguma forma se projetam na hora de fazer uma letra ou mesmo uma música?

Renato – Sim, cara. Acho que o processo de criação passa muito por essas influências externas. As vezes é um filme que você vê que te inspira para uma letra ou até mesmo para compor uma música. As vezes é um livro. Além é claro das experiências pessoais de cada um. Cada porrada da vida serve não só de aprendizado, como na maioria das vezes também de inspiração.

Sujeira – O Carahter possui uma sonoridade que não pode ser facilmente rotulada, acredito que seja pelo fato de juntarem diversos elementos de vários subgêneros dentro do Hardcore e Metal e os condensar em uma coisa só. Ao meu ver o público brasileiro não assimila muito bem bandas assim. Você acha que há realmente uma resistência parte público quando tratamos de bandas não genéricas/convencionais, como o Carahter?

Renato – Acho que muitas vezes rola o estranhamento inicial. O cara muitas vezes quer ouvir algo mais comum que ele ta mais acostumado e quando ele ouve algo que foge um pouco disso ele acha estranho. Mas nos shows que a gente tem dado, a recepção tem sido boa. As vezes rola esse estranhamento inicial, mas depois o cara acaba curtindo o som e o show. Mas se o cara não curtir, nós não vamos perder o nosso sono por causa disso.

Sujeira – Por falar nisso, como foi a resposta do público com a volta da banda ?

Renato – Cara, tem sido muito boa! Bem legal mesmo. O segundo semestre do ano passado foi bem intenso. Muitos convites para shows, lançamos as três músicas novas, lançamos merch novo…e para tudo isso a resposta foi bem positiva. A gente tava até um pouco receoso, porque voltamos totalmente focados nas músicas novas, mas acho que o pessoal entendeu bem essa proposta.

Sujeira – Houve uma renovação de público ou vocês vêem nos shows as mesmas pessoas que assistiam a banda a 10 anos atrás ?

Renato – Acho que é um misto. Em BH vai muito amigo das antigas, muita gente que ia aos nossos shows e vai naquela onda de nostalgia. Mas tem a molecada nova também que só conhecia a banda de nome e tá conhecendo agora com as músicas novas e com os shows de agora. Então , aqui em BH pelo menos é bem mesclado.

Em SP e outras cidades é difícil dizer, porque na maioria das vezes tocamos em festivais ou com outras bandas maiores, mas acho que rola essa mistura também.

Sujeira – Desde de que a banda retornou, a impressão que tenho é que estão sempre em atividade, seja gravando, tocando em shows ou mesmo planejando os próximos passos da banda. Quais são os planos de vocês para o ano de 2012 ?

Renato – É cara, a gente tenta sempre tá fazendo alguma coisa pra não deixar a chama apagar!
Mas no momento estamos completamente focados na gravação do disco novo que vai ter onze musicas . Já gravamos todas as bateras e agora estamos indo para as guitarras e baixos. A nossa previsão é de até meados de abril já estar com pelo menos a gravação toda pronta, para tentar lançarmos em junho/julho.

Sujeira – Tem planos para o lançamento de material físico ?

Renato – Temos sim…ainda não sabemos o formato para falar a verdade. Não tem como negar que a internet mudou tudo em relação a lançamento de material físico. Ainda não sabemos se vamos lançar em cd mesmo ou tentar correr atrás de lançar em vinil o que seria fodasso! Mas agente ainda ta vendo isso tudo , o importante mesmo é focar agora na gravação para não botarmos o carro na frente dos bois, como dizemos por aqui!

Sujeira – Novamente agradeço em nome do Sujeira a entrevista cedida e deixo aqui o espaço para divulgar o que quiser o dizer algo que considere importante! Valeu, Renato

Renato – Nós que agradecemos. Zines( e webzines) são um dos elementos mais importantes da cultura do underground e é algo que está faltando demais no Brasil.

Bem, o que a gente pode dizer é pro pessoal ficar de olho no nosso facebook (www.facebook.com/carahter) e no twitter (twitter.com/carahter) porque assim que a gravação estiver pronta a gente deve lançar alguma coisa! 2012 promete e nos vemos na estrada muito em breve!

Foto por: Marcel Gallo

Exposição “DETURPAÇÃO” começa neste final de semana em São Paulo

Neste sábado dia 3 de março começa a exposição “Deturpação” no espaço Hotel Tees (Loja). Onde vai rolar o encontro de quatro nomes do underground da arte nacional. O projeto conta com os artistas  Eduardo Vaz, Lucas Cabu (Lucas Valente), Kaue Garcia e Rael Brian.Todos estes artistas tem uma relação forte com o estilo de vida “Faça Você Mesmo” e com a cultura Punk/Hardcore, o que se reflete em seus trabalhos, mesmo que de forma subliminar.

A colagem é algo explicito e notável nas obras dos caras, Lucas Valente discorre um pouco mais sobre o assunto, deixando as coisas um pouco mais claras;

“Vão ser apresentadas diferentes técnicas de colagem, que são usadas como parte de um processo do desenho, ou como finalidade. Deturpação no dicionário significa: “não dar o verdadeiro sentido a”; alterar; corromper; desfigurar; estragar. 
Por isso o nome da expo. Destruindo, modificando, transformando, livros, revistas, papeis, em uma nova história, estamos deturpando seu significado inicial, para o fim que convir”. (Lucas Valente, idealizador do projeto)

Da uma sacada nos trabalhos dos caras, com um pouco da nossa opinião exposta.

Lucas Valente sempre desenhou de forma descompromissada, com um traço mais grosseiro, mas sempre tentando passar ideias em seu trabalho, colocando um tema de questionamento, expondo a neurose cotidiana. Eu percebo que a estética é o que menos importa, apesar de ser sua primeira exposição usando material físico (Lucas já expos usando vídeo arte) agora tem incorporado mais colagens em suas novas criações.

O Kaue Garcia faz colagens há cerca de sete anos, e o trabalho dele é especificamente isso. Usa revistas dos anos 60 e 70 e tem referências de arte-xerox, neo-expressionismo e outras manifestações de grupos de vanguarda de anti-arte. Percebo que tem como base a ironia e sarcasmo usado muito no meio Punk com boas sacadas, pegando chavões do mundo contemporâneo e fazendo uma crítica nem sempre tão inibida a sociedade, usando essas artimanhas para brincar com as hipocrisias não muito comentadas.

O Rael Brian é mais novo, ele estudou fotografia e pira em retratos, então ele faz uns rostos deformados, com tanta camada de papel que as colagens muitas horas lembram pinturas a óleo. Vejo um clima obscuro, mas meio abstrato, demoro horas pra perceber se existe uma mensagem naquilo, porém acabo entrando em uma confusão, pode ser que esse seja o foco, confundir e questionar, mas nem sempre chegar a uma conclusão.

O Eduardo usa a colagem muitas vezes como parte de um processo de desenho. Pra essa exposição ele está montando uma instalação na parede. Os trabalhos acabam levando a gente para o fundo, faz você observar sem parar tentando ver algo mais, lá atrás, bem escondido, a estética do preto e branco é bem curiosa, passa esse clima rustico, sombrio, sem muitos corpos, cheio de “solidão”.

Se ficou interessado é uma boa pedida pra conhecer coisas novas e abrir um pouco os horizontes. É legal ter esse tipo de contato, muda um pouco o senso comum de que muita gente tem dentro das subculturas a respeito da arte, mostrando que com pouco se pode fazer muito, caminhando lado a lado com qualquer tipo de ideia “contra cultural”. A exposição é free e todos são bem vindos.

Segue o vídeo de divulgação do evento:


Deturpação
artistas Eduardo Vaz, Lucas Cabu (Lucas Valente), Kaue Garcia e Rael Brian
03 ao 24 de março
Local: Hotel Tees. Rua Matias Aires, 78. Consolação. São Paulo/SP
Abertura dia 03.03 das 16h as 22h.