Entrevista com Carahter.

Carahter certamente é um dos nomes mais emblemáticos do Hardcore/Metal underground mineiro. Se você acha que a fórmula Hardcore mais Metal está batida, provavelmente não conhece o Carahter, que faz essa mistura sem soar óbvio e de forma não cansativa, tarefa que muitas bandas do “gênero” nem sempre conseguem cumprir. Dez anos após o lançamento do disco “O Intenso desespero sobre a decadência humana” e passado por um hiato de aproximadamente cinco anos, a banda está de volta e com força total. Durante 2011 tocaram em diversos shows, dentro e fora de Minas Gerais, também entraram em estúdio e lançaram virtualmente três sons destes novos registros, que podem ser ouvidos aqui. Nesta entrevista Renato (vocal) fala com o Sujeira sobre o retorno da banda, mostra a sua percepção quanto ao circuito DIY europeu e comenta sobre os planos da banda.

Sujeira – Primeiramente gostaria de agradecer a você, Renato, pela entrevista cedida. Para começar, como surgiu a idéia de voltar a tocar com o Carahter? Quais foram os fatores que motivaram a volta da banda?

Renato – Cara, nós que agradecemos o espaço aqui, valeu demais pela oportunidade!

Mas então, em 2005 metade da banda se mudou para Los Angeles. A gente ia gravar o disco novo lá e todo mundo estava na pilha. Mas eu (Renato) tive uns problemas pessoais e não fui, nisso outra parte acabou voltando pra cá e ficou todo mundo separado. Com isso ficou tudo mais complicado e a coisa foi esfriando até que quando agente viu a banda tinha acabado.

Em 2010 estava já todo mundo de volta no Brasil e voltamos a encontrar. Agente gostava muito das coisas novas que agente tinha feito, já tinha muita coisa pronta mas nada gravado ainda. Nisso voltamos a ensaiar e a fazer mais musicas e aos poucos a coisa foi engrenando de novo.

Em 2011 resolvemos gravar 3 dessas musicas novas e voltamos a tocar também.

Sujeira – O circuito Hardcore/Metal é costumeiramente concentrado nas grandes capitais, principalmente em São Paulo (cidade onde nós do Sujeira vivemos) e em muitas vezes estes circuitos tornam-se restritos a bandas locais. Qual é a maior dificuldade em fazer este intercâmbio com outras regiões do Brasil?

Renato – A maior dificuldade é a questão financeira no final das contas. Viajar com banda sempre tem um custo grande de transporte, rango , etc. E todos nós trabalhamos e temos contas para pagar, então acaba que não podemos “perder” muita grana com a banda e não é todo show que consegue pagar as despesas. Então sempre fica naquele dilema, mas sempre estamos na pilha de tocar fora de BH e tentarmos fazer isso da maneira mais econômica possível pra poder viabilizar pra todo mundo

Sujeira – Vocês já sairam em turnê pela Europa, certo ? Quais foram as maiores diferenças, notadas por vocês entre a cena musical underground brasileira e européia?

Renato – Saimos sim, em 2004. Foi uma turnê muito foda, 33 shows em 13 países! Uma experiência marcante para todos nós. Acho que a principal diferença é a infra estrutura que o underground de lá tem. Toda a rede funciona bem, os caras que armam as turnês, as casas, o esquema de backline, de van, enfim, tudo funciona melhor e fica redondo no final das contas. Outra coisa que ajuda muito também é que lá tem uma cultura de ter show dia de semana, o que aqui no Brasil geralmente não funciona.

O público em si não é tão diferente daqui…tem lugar que a galera é mais “fria”, mas no geral todo mundo era bem interessado e pelo menos ouvia com atenção o show. Rola uma boa vontade com as coisas de fora.

Carahter no Kool Metal Fest. Foto por: Wander William

Sujeira – Comparado ao disco “O intenso desespero sobre a decadência humana” a banda passou por uma considerável mudança musical, a minha impressão é que o Carahter tornou-se muito mais denso, musicalmente falando, apesar disso a sonoridade não foi descaracterizada. Isto foi um processo natural ou essa mudança foi premeditada?

Renato – Foi um processo totalmente natural. A gente se orgulha muito do intenso desespero sobre a decadência humana, mas lá se vão dez anos! Hehe.

É tempo pra caralho…muita experiência vivida, muitas influencias novas, mas acho que as características principais estão também nas músicas novas, ainda que de maneira diferente. Mas as mudanças são sempre naturais, a gente não senta e fica pensando “vamos fazer uma música diferente agora”, as coisas simplesmente fluem desse jeito.

Sujeira – Quais são suas principais influências musicais ? Vocês tem alguma influência inusitada, digo, alguma influência que possa causar surpresa ao ouvinte padrão de Hardcore/Metal?

Renato – Cara, todo mundo da ouve muita coisa diferente. A gente se encontra musicalmente no Metal e no Hardcore, mas todo mundo tem influencias diferentes, então acho que isso tudo acrescenta ao processo de criação e composição. Mas pode saber que a gente ouve de tudo de The Police, a Pink Floyd , de Morrissey a Death, música instrumental, rap, enfim, é até difícil nomear pra não ser injusto com o gosto de todo mundo! hehe

Sujeira – A banda possui outras influências não musicais que de alguma forma se projetam na hora de fazer uma letra ou mesmo uma música?

Renato – Sim, cara. Acho que o processo de criação passa muito por essas influências externas. As vezes é um filme que você vê que te inspira para uma letra ou até mesmo para compor uma música. As vezes é um livro. Além é claro das experiências pessoais de cada um. Cada porrada da vida serve não só de aprendizado, como na maioria das vezes também de inspiração.

Sujeira – O Carahter possui uma sonoridade que não pode ser facilmente rotulada, acredito que seja pelo fato de juntarem diversos elementos de vários subgêneros dentro do Hardcore e Metal e os condensar em uma coisa só. Ao meu ver o público brasileiro não assimila muito bem bandas assim. Você acha que há realmente uma resistência parte público quando tratamos de bandas não genéricas/convencionais, como o Carahter?

Renato – Acho que muitas vezes rola o estranhamento inicial. O cara muitas vezes quer ouvir algo mais comum que ele ta mais acostumado e quando ele ouve algo que foge um pouco disso ele acha estranho. Mas nos shows que a gente tem dado, a recepção tem sido boa. As vezes rola esse estranhamento inicial, mas depois o cara acaba curtindo o som e o show. Mas se o cara não curtir, nós não vamos perder o nosso sono por causa disso.

Sujeira – Por falar nisso, como foi a resposta do público com a volta da banda ?

Renato – Cara, tem sido muito boa! Bem legal mesmo. O segundo semestre do ano passado foi bem intenso. Muitos convites para shows, lançamos as três músicas novas, lançamos merch novo…e para tudo isso a resposta foi bem positiva. A gente tava até um pouco receoso, porque voltamos totalmente focados nas músicas novas, mas acho que o pessoal entendeu bem essa proposta.

Sujeira – Houve uma renovação de público ou vocês vêem nos shows as mesmas pessoas que assistiam a banda a 10 anos atrás ?

Renato – Acho que é um misto. Em BH vai muito amigo das antigas, muita gente que ia aos nossos shows e vai naquela onda de nostalgia. Mas tem a molecada nova também que só conhecia a banda de nome e tá conhecendo agora com as músicas novas e com os shows de agora. Então , aqui em BH pelo menos é bem mesclado.

Em SP e outras cidades é difícil dizer, porque na maioria das vezes tocamos em festivais ou com outras bandas maiores, mas acho que rola essa mistura também.

Sujeira – Desde de que a banda retornou, a impressão que tenho é que estão sempre em atividade, seja gravando, tocando em shows ou mesmo planejando os próximos passos da banda. Quais são os planos de vocês para o ano de 2012 ?

Renato – É cara, a gente tenta sempre tá fazendo alguma coisa pra não deixar a chama apagar!
Mas no momento estamos completamente focados na gravação do disco novo que vai ter onze musicas . Já gravamos todas as bateras e agora estamos indo para as guitarras e baixos. A nossa previsão é de até meados de abril já estar com pelo menos a gravação toda pronta, para tentar lançarmos em junho/julho.

Sujeira – Tem planos para o lançamento de material físico ?

Renato – Temos sim…ainda não sabemos o formato para falar a verdade. Não tem como negar que a internet mudou tudo em relação a lançamento de material físico. Ainda não sabemos se vamos lançar em cd mesmo ou tentar correr atrás de lançar em vinil o que seria fodasso! Mas agente ainda ta vendo isso tudo , o importante mesmo é focar agora na gravação para não botarmos o carro na frente dos bois, como dizemos por aqui!

Sujeira – Novamente agradeço em nome do Sujeira a entrevista cedida e deixo aqui o espaço para divulgar o que quiser o dizer algo que considere importante! Valeu, Renato

Renato – Nós que agradecemos. Zines( e webzines) são um dos elementos mais importantes da cultura do underground e é algo que está faltando demais no Brasil.

Bem, o que a gente pode dizer é pro pessoal ficar de olho no nosso facebook (www.facebook.com/carahter) e no twitter (twitter.com/carahter) porque assim que a gravação estiver pronta a gente deve lançar alguma coisa! 2012 promete e nos vemos na estrada muito em breve!

Foto por: Marcel Gallo

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