Sujeira conversa com Lucas Valente sobre Arte, Underground e suas “contradições”.

Lucas Valente

Lucas Valente

Trocamos uma ideia com Lucas Valente essa semana. Lucas tem 28 anos, nasceu na cidade de santos, trabalha com edição de Vídeo a alguns anos, abandonou o escritório faz pouco tempo, mescla seu tempo com o trabalho de edição formal (base de sua renda) com captações e edições com vínculo a cena alternativa (Dvd’s de bandas, vídeo arte, clips de bandas). Além disso tem se focado em projetos de arte mais obscuros. Colagem, Exposições, Fanzines e etc. Nós perguntamos suas influências, alguns questionamentos, como é estar no underground, as pretensões que existem dentro desse meio, interesse, possíbilidades que são apresentadas e muito mais. A conversa não foi muito longa, mas foi bem produtiva, dando uma boa noção pra quem não conhece o trabalho do cara conhecer, essa entrevista é bem válida para apreciadores de arte que estão por fora do circuito alternativo que vem se formando, poder se interar e abrir os horizontes. Caso alguém tenha interesse em conversar com o Artista, entre em contato com o email do Sujeira, leia e compartilhe ideias.

Sujeira – Quando começou seu interesse pela arte?

Minha mãe era artista plástica, mas havia parado de produzir para cuidar dos filhos, meu pai era jornalista que trabalhava muito pra trazer a grana pra casa, e eu era um moleque padrão criado na praia, então, pra mim arte era uma coisa mais ligada a mulher, coisa de menina. Depois, com 16, 17 anos, a gente tinha uma cena em Santos, e eu ia pra show todo final de semana, nessa época comecei a me ligar nas capas de discos e em 99 saiu o “novo” do Garage Fuzz, o Turn The Page, que tinha vários desenhos, umas parada desconexa do hardcore pra mim na época, junto com isso vi que o “songs about week here…” do Againe, tinha uns desenhos também na parte de traz, e os créditos das artes era dos caras da banda, ai comecei a prestar atenção, eu ia na loja de disco do farofa lá, e lá via vários desenhos, pela cidade também via que o farofa tava colando e desenhando, ai comecei a pensar que grafite não era só hip hop e que arte não era coisa de menina, o hardcore abriu minha cabeça machista pra isso. Quando eu era moleque eu pixava, então um pouco mais velho resolvi que queria fazer isso também, foi uma continuidade, comecei a fazer zine, retomei o desenho que estava parado, pesquisar, me interessar. Na época estava começando a escutar uns sons das bandas da Jade Tree (gravadora), e essas estética das capas de disco, anúncios também foram foda, tinha um zine punk argentino que saiu na época com uma matéria sobre arte e rock e isso também mudou minha cabeça, lá a parada já era mais esclarecida, os argentinos já tinham uma ideia de ser artista e trabalhar com arte bem resolvida, sem ter medo de ser artista. É difícil dizer que é artista, ainda mais se tu vem do meio punk ou da rua que seja, que tu sabe que se falar sobre arte ou disser que é artista vai ser cobrado por isso. haha


Sujeira – Oque você enxerga como underground?

Underground é um ambiente independente da grande mídia, fora de padrões culturais e modismos, esse é o conceito. Hoje em dia a internet tirou a força da grande mídia e está tomando o lugar dela aos poucos. Acho que com a revolução internet, daqui poucos anos o conceito de underground vai ser tudo que o Google não conseguir enxergar, tudo aquilo que estiver na deepweb, mas isso é papo de louco…

Lucas Valente

Lucas Valente

Sujeira – Eu sei que você já tem um trabalho com vídeo faz tempo, mas o que fez ir pra o papel?

Sempre desenhei, mas meio cuzão, com medo, aos poucos fui pondo os desenhos em zines, videos, na rua. O papel é um desafio maior porque não dá pra mentir, se você não tem muita técnica que é o meu caso, você desenha o que você é, não dá pra enganar, não tem “Control Z”. O que me faz querer ir cada vez mais pro papel é esse desafio de bater de frente consigo mesmo, que nem terapia.

Vídeo Art

Vídeo Arte

Fanzine com texto, imagens e cd com vídeos.

Fanzine - Texto, imagens e cd com vídeos.

Sujeira – Eu percebi que os seus trabalhos sempre tem um questionamento pessoal ou do mundo, o que influencia isso?

Porra, beleza por beleza é legal, mas gosto de conversar, pra mim a beleza é importante, mas tá lá pra quinto lugar de importância num trabalho, to mais interessado na sinceridade, na discussão.

Informação/Desinformação

Informação/Desinformação

Sujeira – A gente sabe que existe um senso comum que coloca a arte em patamar de elite, como vê essa visão e o que pode dizer pra afirmar que isso é um erro

Tem um artista alemão chamado Joseph Beuys que diz que “Todo mundo é artista” e se você olhar no dicionário, arte é tudo aquilo que o homem produz. Uma obra de um artista da Bienal pode ser um “privilégio” de uma minoria, de uma elite milionária, mas isso não é tudo que existe, estão aparecendo cada vez mais galerias pequenas e artistas com pé no chão.
Sujeira – Eu te conheço pessoalmente e sei que o hardcore foi sua escola, queria saber se isso influencia até hoje nos seus trampos?

O hardcore tá no trabalho de arte que nem tá no dia a dia, na vida, não dá pra fugir. Na arte ele aparece no proceso, eu to produzindo algo ai já vem o hardcore cobrar: “Porque você tá fazendo isso? Será que isso é de verdade mesmo? O que você realmente acha disso?” A escola do hardcore fez eu tentar pensar por mim mesmo, questionar padrões, verdades impostas. Isso aparece nos trabalhos, por isso sempre coloco umas frases, é meio que uma conclusão de todo esse questionamento que tive durante o processo. Eu sei que o trabalho está pronto quando eu já sei o que quero dizer, antes de começar muitas vezes eu só tenho uma breve noção. Da musica sempre vem uma frase, uma ideia também, que acaba no trabalho, por que é o que está mais perto.


Sujeira – E a Lowtown? O que é, que trabalhos fez?

A Lowtown é uma produtora de vídeos que trabalha com bandas e artistas independentes, fizemos um documentário pro DVD do Garage Fuzz , DVD do Boom Boom Kid, Mukeka Di Rato, Laja 100, Clipes, etc. To dando uma força agora pra um projeto de video do Diogo Disturbios, relacionado a musica também.

Lowtown

Lowtown

DVD Boom Boom Kid

DVD Boom Boom Kid

Sujeira – A gente sabe que muita gente força a barra dentro do punk com o lance de ser anti-arte, mas no sentido literal da coisa, não como um movimento de arte, você tem uma opinião sobre isso, essa herança hater que o hardcore/punk deixou?

Tem punk que é anti-trabalho, anti-arte, anti-sexo, anti-umapádecoisa. Pra mim o punk é uma cena de liberdade, que cada um pode ser você mesmo e foda-se, então tem muita gente que fica encanada com essas “regras” do punk e acaba esquecendo de pensar por si próprio ou se boicotando de fazer alguma coisa, de ter um trabalho, fazer um desenho, colar numa balada, o que for, só porque é punk. O Crass era um role de arte e a musica era só uma parte disso, tinha os vídeos, os desenhos. Mas por outro lado, eu até entendo que essas pessoas não sejam a favor, não é fácil entender arte, assim como não é fácil entender o punk.  No meio da arte tem muita merda, tipo idolatria e pagação de pau pro artista que às vezes é visto como um ser superior, e o punk tem isso de querer matar os ídolos, de não ter idolatria. Do jeito que eu vejo, o artista tem o mesmo valor que um pedreiro, um médico ou qualquer outra pessoa. Hoje em dia a arte é mais democrática e de uns anos pra cá “todo mundo é artista” e às vezes parece que ninguém tem nada para dizer, então às vezes parece charlatanismo mesmo, alguns casos eu também acho isso, mas no geral é mais complicado que isso, tem muito mais coisa por trás, tipo, você já tentou explicar o que é o punk pra alguém com um estilo de vida totalmente diferente? Tu pode até tentar explicar, mas a pessoa nunca vai entender o que é de verdade. Com a arte é a mesma coisa, tu pode tentar explicar, mas é complicado de entender, só vivendo mesmo.

Não é fácil, mas é longe de ser difícil

Não é fácil, mas é longe de ser difícil

Sujeira – Falando um pouco sobre a exposição, como foi à escolha dos artistas? Qual foi a motivação de criar o projeto?

Quis chamar pessoas que eu curto o trabalho, que tem algo pra dizer, e que parte  dos meus camaradas não conhecessem. O fato de essas pessoas serem ligadas ao hardcore/punk foi só coincidência, isso não foi critério. A motivação é criar pontes, aproximar pessoas e rolês diferentes, mas com coisas em comum.

Exposição "Deturpação"

Exposição "Deturpação"

Sujeira – Queria que discorresse um pouco sobre os benefícios e malefícios de se trabalhar no underground, o que acha que pode ser aprimorado e etc.

O beneficio é não ter que trabalhar com um bando de babacas todo dia e poder ser você mesmo, entre uma porrada de outras coisas. Os malefícios é que as gerações anteriores usaram muita droga e tão muito lesadas pra trabalhar direito haha. Tem aquela ideia aqui no Brasil de que ter um selo, uma distro é pra se fuder, de que se trabalhar no underground vai só gastar grana. Isso é errado. Falta gente trabalhando sério e direito.

Sujeira – O que acha da pretensão de viver disso? Acha possível ter esse tipo de pretensão sem cair nas garras do mainstrean?

Por anos eu quis ter outro trabalho regular, para não comprometer a produção de arte, pra poder criar sem me preocupar em vender, pra ter o meu tempo, etc. Essa é uma questão foda. Eu quero em breve já viver disso, e cada vez menos trabalho com coisas não ligadas a arte. Existe uma pequena cena independente se formando, pessoas com o pé no chão, sem o deslumbre da arte da Faap, mas essa cena ainda não se sustenta, ainda falta muita coisa, espaço, mídia, a cabeça mesmo mudar.  Trabalho por essa cena, e se ela se pagasse, as pessoas conseguissem viver, viajar com o trabalho, num esquema punk mesmo, pra mim estaria ótimo. Gostaria de ver a cena se autogerindo sem precisar de governo, edital, prefeitura, o que for, mas a realidade não é essa.
Hoje tem, por exemplo, o Pexão, um cara que há anos tem uma galeria pequena e bem foda em Porto Alegre, fez um puta corre sério no underground e agora continua tocando a galeria pequena, mas abriu uma galeria branca mesmo, coisa grande, aqui em SP. Esse cara pegou vários artistas do underground, alguns vindo do Punk, tá representando essas pessoas, dando um gás e essas pessoas talvez possam agora depois de décadas se fudendo, ter um respiro econômico. O punk é tipo uma bola de ferro presa no seu pé que você carrega pro resto da vida, se o artista veio de lá e estiver vendendo um quadro por 20 mil reais, ele não vai pegar essa grana e comprar uma Mercedes, o cara vai fazer uma pista de skate, montar um selo, sei lá. O cara não vai cobrar 20 mil de um amigo, vai trocar ou dar o desenho.  É ótimo ter grana circulando nessas mãos. A arte visual pra mim não é como o skate ou o punk que quanto mais obscuro mais legal, é diferente, mas ainda não sei direito como ou por quê.

Sujeira – Pra finalizar gostaria queria que citasse as suas influências principais, sejam elas inusitadas ou não, dentro de tudo que está ligado a produção artística, seja música, vídeo, texto e imagem.

Influência é difícil falar, tem várias, não sou ingênuo, mas a parada pra mim é mais de colocar as coisas pra fora do que ficar pesquisando pra juntar elementos e montar uma formula que dê certo, então as coisas que influenciam são a praia, ter andado na praça, anos 90, roubado madeira na construção, shows de rock, vídeos e arte de surf e skate, capas de disco, art-xerox, papel rasgado, pessoas com mais de 40 anos que ainda usam boné e se mantem jovem. Tipo isso.

Colagens

Colagens

Sujeira – Manda aquele salve e a mensagem que quiser.

Valeu pelo espaço Xavero e Sujeira, essa foi minha primeira e melhor entrevista. Abs

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9 respostas em “Sujeira conversa com Lucas Valente sobre Arte, Underground e suas “contradições”.

  1. Muito bacana a entrevista do Lucas, porém tenho algumas colocações:
    Ao fazer Arte intrinsecamente temos que produzi-la, certo?
    Se pensarmos assim de onde vem tanta inspiração, ou mesmo pensamentos e sentimentos, já que o entrevistado deixa claro que coloca pra fora o que sente, como seria a implementação da ideia para a produção em si?
    Outra coisa é quando falamos também da valorização do trabalho, como artista sabemos o quanto é foda vivermos disso, e como vc disse: “estou tentando viveciar apenas disso e deixar pessoas (patrão) que ficam mandando em nós de lado” mas ao se fazer arte pra quem fazemos e quam consome? Pois seja amigo ou não é um trampo que deva ser respeitado e valorizado, como vc lida com este mercado (Não capitalista) mas o da venda de seus trampos? Ou melhor dizendo como vc lidaria com esta questão?
    É isso, parabéns ai pelo trampo de blog e é examante disso que estamos precisando, ideias, discussões e posicionamentos neste mundão pequeno mas ao mesmo tempo enorme para quem sabe aproveitar.
    Até.

    • Da hora as perguntas…..

      Confesso que fui um pouco romantico e igenuo em alguns momentos da entrevista.

      A inspiração vem de artistas, design, revistas, clipes e outras coisas que se contar perde a graça haha.

      Gostaria que nos mesmos consumirmos arte, de ser acessivel para gente como agente. Arte é um trabalho, não tem tanto romance, a poesia fica em trabalhar no independente, para nós, mas a realidade hoje é distante, para viver de arte é preciso entrar no mercado, se colocar como produto, como qualquer trabalho. A diferença pra mim da arte pra outro trabalho é que nela tu não tem um patrão fixo, tu pode trabalhar no teu estudio de chinelo, pensando e qustuionado coisas da vida e colocar esses questionamentos no trabalho. Mas essa é minha visão. De qualquer forma, normalmente acabamos produzindo sob demando né…

      Sobre venda, o proprio preço que o artista coloca é uma expeculação. Pra mim cada situação é um preço, um amigo que tem grana paga X, um publicitario Y e por ai vai, mas no mercado infelizmente tem que ter um preço e tal. Se alguem realmente quiser comprar o trabalho pq gostou e a pessoa não tiver grana, dependendo do trabalho eu faço um preço bem camarada.

      Valeu as perguntas

      Abs

  2. Da hora as perguntas…..

    Confesso que fui um pouco romantico e igenuo em alguns momentos da entrevista.

    A inspiração vem de artistas, design, revistas, clipes e outras coisas que se contar perde a graça haha.

    Gostaria que nos mesmos consumirmos arte, de ser acessivel para gente como agente. Arte é um trabalho, não tem tanto romance, a poesia fica em trabalhar no independente, para nós, mas a realidade hoje é distante, para viver de arte é preciso entrar no mercado, se colocar como produto, como qualquer trabalho. A diferença pra mim da arte pra outro trabalho é que nela tu não tem um patrão fixo, tu pode trabalhar no teu estudio de chinelo, pensando e qustuionado coisas da vida e colocar esses questionamentos no trabalho. Mas essa é minha visão. De qualquer forma, normalmente acabamos produzindo sob demando né…

    Sobre venda, o proprio preço que o artista coloca é uma expeculação. Pra mim cada situação é um preço, um amigo que tem grana paga X, um publicitario Y e por ai vai, mas no mercado infelizmente tem que ter um preço e tal. Se alguem realmente quiser comprar o trabalho pq gostou e a pessoa não tiver grana, dependendo do trabalho eu faço um preço bem camarada.

    Valeu as perguntas, você tem Blog, site?

    Abs

  3. isso ai cabu da hora! conheço vc a 500 anos e sei que é sincero tudo que falou! valeu me citar como influencia ali no começo mano 😉

    • Mano, eu li de novo a entrevista e fiquei mal haha, fui tipo um menino igênuo do primeiro colegial em metade das respostas haha
      Tava num momento jade tree acho, mas tentei ser o mais sincero possivel, não fantasiar muito. Hoje em dia o que acho memo é oq que respondi pro cara ali em cima….

      • eu acho que vc. tem mais é que ficar orgulhoso da tua entrevista. pra mim suas palavras não se chamam ingenuidade, se chamam coragem e personalidade – coisas que poucas pessoas têm hoje em dia.
        só parece ingênuo, talvez, por vc estar falando essas coisas no meio de um mundo bem incoerente hoje em dia. mas tudo que vc. falou deveria estar dentro de cada um que faz arte ou que busca estar completo trabalhando no que for.
        são pessoas ‘idealistas e ingênuas’ como nós (digo nós porque um dia dei uma entrevista para um site, sou atriz, e senti tb que tinha sido bem idealista nela) que acabam fazendo a diferença.

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