Entrevista com a banda Espanhola APPRAISE

Estamos de volta depois de um longo tempo de férias e muitos dias sem aparecer. Eu sei que palavras parecidas já foram ditas, mas prometemos manter esse espaço mais atualizado.

O ano de 2013 com certeza está começando bem para os brasileiros que apreciam a cultura alternativa. É janeiro e já temos três turnês de bandas estrangeiras marcadas aqui (Appraise, Los Crudos e Cruel Hand), isso que estou focando apenas no cenário hardcore.

appraise fotona

Para começar bem o ano quem desembarca no Brasil é o Appraise, quarteto pouco conhecido por aqui, mas não os seus membros. A banda é o novo projeto de alguns integrantes do mítico CINDER. O som não foge muito do estilo do antigo projeto, seguindo a linha “old school” de clássicos do youth crew, mas com a simplicidade e energia do hardcore americano do começo dos anos 80. Tive o prazer de ver o show dos caras em Barcelona em 2012 e posso dizer uma coisa: É MUITO BOM!!

Eu não vou ser muito longo na apresentação, pois abaixo de minhas palavras segue uma entrevista que eu fiz com o vocalista, Gabi Edge. Aqui você vai entender a proposta da banda, suas ideias, o que eles esperam dessa turnê e algumas curiosidades. Divirta-se.

Sujeira: Como surgiu a ideia de montar a banda?

Gabi Edge: A banda surgiu há 1 ano mais o menos. Anteriomente nós tocavamos em uma banda que se chamava “Power”, mas o guitarrista foi viver em Vancouver e o baterista quis focar em outros projetos.
Depois disso decidimos continuar tocando, mas com outro nome e novas influências, não muito diferentes. Logo em seguida nosso amigo Eric (Cinder) entrou na bateria. Alguns ensaios e já gravamos a primeira demo e logo um 7EP. Recentemente gravamos uma demo com 4 músicas, que será uma prévia do nosso próximo 7″.

 A banda é bastante jovem, mas temos muita sorte de ter tocado em vários shows em nossa cidade e um pouco pela Espanha. Agora nós temos a grandiosa sorte de poder tocar na América do Sul!!

Sujeira: O hardcore old school é estilo favorito dos straight edge’s de Barcelona?

Gabi Edge: Acho que para alguns sim!! Eu não acho que existe uma cena straight edge grande em Barcelona, somos poucos, mas comprometidos. Eu acho que o youth crew sempre tera um lugar especial dentro do straight edge.

Sujeira: Conte um pouco sobre a cena local de vocês, como é a organização de shows e como cada integrante é ativo na cena.

Gabi Edge: A cena em Barcelona é bem pequena, mas com um bom ambiente. A organização de shows é algo que fazemos entre amigos. Obviamente eu falo de hardcore DIY (claro que existem bandas que estão a médio caminho do mainstream ou pelo menos pretendem estar hahaha)

Joan e Eric tocam no Col·lapse, que soa como todas essas bandas mais melódicas de Washington DC, que eles gostam muito. Miguel toca no Pay The Cost (straight edge hardcore). Eu estou no Appraise, organizando shows, ajudo no que posso e no que me motiva.

Joan ajuda muito desenhando flyers, layouts, etc. Eric é um grande fotografo, fez uma reportagem nos últimos anos sobre a cena hardcore em Barcelona!

Sujeira: Essa é a primeira turnê da banda? Caso seja, por que escolheram a America do Sul?

Gabi Edge: Como eu comentei antes, tocavamos no Power, Varsity Records (selo argentino) lançou uma demo nossa e comentaram de irmos fazer alguns concertos na América do Sul. Quando começamos com o Appraise, essa ideia surgiu de novo.

Eu nós dissemos, por que não? Todos temos bons amigos lá. Cinder foi 2 vezes e sempre nos contaram coisas maravilhosas. Agora chegou a vez de viver tudo isso em primeira pessoal!!!!

appraise bass

Sujeira: O que estão esperando dos shows do Brasil?

Gabi Edge: Bom, somos uma banda nova, não podemos ter nenhuma expectativa!! Mas eu espero passar bons momentos com os amigos, desde os que conhecemos na europa até os que conhecemos no Brasil! Mas acima de tudo, comer muito açai hahah!

Agora é sério, tocar com nossos amigos que conhecemos na Europa! Tenho muita vontade de tocar com Good Intentions e Positive Youth. Eu gostaria muito de tocar com o Personal Choice, mas eu sei que isso não vai acontecer (essa banda é incrível)

Sujeira: Na sua opinião, o que mais te incomoda no hardcore e o que você mais ama no hardcore atual, que não te deixa abandonar esse estilo de vida?

Gabi Edge: Nossa, poderia ficar horas aqui para responder essa pergunta, mas vou resumir. O que mais me incomoda é que tudo é uma competição, uma vontade de ser mais que os outros. Eu acho muito irônico vindo de um movimento que surgiu com ideias opostas a essa.

O que eu mais gosto?  Posso ter um lugar para me expressar, um lugar onde encontro soluções para muitos problemas, lugar onde posso ser criativo. Eu me sinto o cara mais feliz do mundo, ainda mais podendo desfrutar de grandes amizades que fiz durante muitos anos.

appraise banda

Sujeira: Quais foram os discos que mudaram sua vida?

Gabi Edge:  Foram muitos, mas eu vou te dizer 10!

MINOR THREATH – DISCOGRAPHY
YOUTH OF TODAY – WE’RE NOT IN THIS ALONE
CHAIN OF STRENGHT – THE ONE THING THAT STILL HOLDS TRUE
INSTED – WHAT WE BELIEVE
DAG NASTY – CAN I SAY
MAINSTRIKE – NO PASSSING PHASE
CINDER – QUE TE PARTA UN RAYO
AFTERLIFE – ENTER THE DRAGON
CHAMPION –PROMISES KEPT
THE FIRST STEP – WHAT WE KNOW

Sujeira: Como você definiria o hardcore na europa nos dias de hoje, existiu um tempo em que ele era melhor?

Gabi Edge: Bom, não gosto de dizer que algo foi melhor anteriormente, no caso foi diferente, com coisas melhores e piores. Eu posso te dizer que o hardcore na Europa vive um momento de apatia, onde todos esperam um “hype” para reagir a alguma coisa. Já não tem personolidade suficiente.

É algo que me deixa triste, mas é assim. Muitas vezes as pessoas só dão suporte para bandas grandes que vem dos EUA, que sempre vem tocar em um esquema mais dentro da cena metalera ou roqueirra. Muitas pessoas acabam seguindo esse “hype” do momento, acabam não valorizando as bandas locais ou quem é comprometido a fazer algo sincero com o hardcore.

Mas sabemos que existem pessoas autênticas também, elas são a nossa inspiração

Sujeira: Cite as principais influências do Appraise.

Gabi Edge: Embora o nossos gostos sejam diferentes, somos fortemente influenciados por Insted, Life’s Halt e todas as bandas de hardcore clássico que nos marcaram durante tantos anos!

Sujeira: Para finalizar deixe um recado e comente sobre a turnê, fique a vontade!

Gabi Edge: Agora podemos dar aquele obrigado a muitas pessoas que estão nos ajudando com a tour, principalmente ao Franco 78life, Kikster Varsity, os caras do Still X Strong (esse inclui você também Xavero!), Edi, Positive Youth, Kanela de Porto Alegre, Eduardo de Curitiba e todas as pessoas que vamos reencontrar e as que vamos conhecer!!

Viva el Açai!!! Y la Paçoquitas!

Shows no Brasil:
19/01 Rio De Janeiro (MTD IRON SQUAD III)
20/01 Volta Redonda (COM EXPO DO SUJEIRA E CREATOR)
24/01 São Paulo (QUINTA HARDCORE, no Vegacy)
26/01 Piracicaba (Verdurada)
26/01 Sorocaba
27/01 São Paulo (Persistir Fest)
29/01 Curitiba
30/01 Porto Alegre

Entrem na página da banda e fique por dentro de todos os shows que vão rolar, eventos, etc. Caso você não conheça o som dos caras, é simples, só clicar no bandcamp.
APPRAISE

Um pouco sobre o show que estamos organizando:

Segue aqui o cartaz e o evento do show que estamos fazendo em São Paulo na quinta feira. O nome é “Quinta Hardcore”. a ideia é fugir desse lance de festa que já virou rotina dentro do punk, usando um dia de semana (apesar de ser véspera de feriado) para colocar em prática aquilo que a gente mais gosta. O local já é conhecido por frequentadores de shows. Estimulamos a troca de desenhos, fanzines e qualquer publicação independente, o espaço é aberto para todas as pessoas. O evento é organizado de forma totalmente DIY e coletiva. Compareça e faça valer o esforço, espero que esses eventos se tornem um estímulo para que mais pessoas organizem os seus pela cidade!
Evento: http://www.facebook.com/events/152537624895316/
hardcorepunk

Anúncios

Sujeira conversa com Lucas Valente sobre Arte, Underground e suas “contradições”.

Lucas Valente

Lucas Valente

Trocamos uma ideia com Lucas Valente essa semana. Lucas tem 28 anos, nasceu na cidade de santos, trabalha com edição de Vídeo a alguns anos, abandonou o escritório faz pouco tempo, mescla seu tempo com o trabalho de edição formal (base de sua renda) com captações e edições com vínculo a cena alternativa (Dvd’s de bandas, vídeo arte, clips de bandas). Além disso tem se focado em projetos de arte mais obscuros. Colagem, Exposições, Fanzines e etc. Nós perguntamos suas influências, alguns questionamentos, como é estar no underground, as pretensões que existem dentro desse meio, interesse, possíbilidades que são apresentadas e muito mais. A conversa não foi muito longa, mas foi bem produtiva, dando uma boa noção pra quem não conhece o trabalho do cara conhecer, essa entrevista é bem válida para apreciadores de arte que estão por fora do circuito alternativo que vem se formando, poder se interar e abrir os horizontes. Caso alguém tenha interesse em conversar com o Artista, entre em contato com o email do Sujeira, leia e compartilhe ideias.

Sujeira – Quando começou seu interesse pela arte?

Minha mãe era artista plástica, mas havia parado de produzir para cuidar dos filhos, meu pai era jornalista que trabalhava muito pra trazer a grana pra casa, e eu era um moleque padrão criado na praia, então, pra mim arte era uma coisa mais ligada a mulher, coisa de menina. Depois, com 16, 17 anos, a gente tinha uma cena em Santos, e eu ia pra show todo final de semana, nessa época comecei a me ligar nas capas de discos e em 99 saiu o “novo” do Garage Fuzz, o Turn The Page, que tinha vários desenhos, umas parada desconexa do hardcore pra mim na época, junto com isso vi que o “songs about week here…” do Againe, tinha uns desenhos também na parte de traz, e os créditos das artes era dos caras da banda, ai comecei a prestar atenção, eu ia na loja de disco do farofa lá, e lá via vários desenhos, pela cidade também via que o farofa tava colando e desenhando, ai comecei a pensar que grafite não era só hip hop e que arte não era coisa de menina, o hardcore abriu minha cabeça machista pra isso. Quando eu era moleque eu pixava, então um pouco mais velho resolvi que queria fazer isso também, foi uma continuidade, comecei a fazer zine, retomei o desenho que estava parado, pesquisar, me interessar. Na época estava começando a escutar uns sons das bandas da Jade Tree (gravadora), e essas estética das capas de disco, anúncios também foram foda, tinha um zine punk argentino que saiu na época com uma matéria sobre arte e rock e isso também mudou minha cabeça, lá a parada já era mais esclarecida, os argentinos já tinham uma ideia de ser artista e trabalhar com arte bem resolvida, sem ter medo de ser artista. É difícil dizer que é artista, ainda mais se tu vem do meio punk ou da rua que seja, que tu sabe que se falar sobre arte ou disser que é artista vai ser cobrado por isso. haha


Sujeira – Oque você enxerga como underground?

Underground é um ambiente independente da grande mídia, fora de padrões culturais e modismos, esse é o conceito. Hoje em dia a internet tirou a força da grande mídia e está tomando o lugar dela aos poucos. Acho que com a revolução internet, daqui poucos anos o conceito de underground vai ser tudo que o Google não conseguir enxergar, tudo aquilo que estiver na deepweb, mas isso é papo de louco…

Lucas Valente

Lucas Valente

Sujeira – Eu sei que você já tem um trabalho com vídeo faz tempo, mas o que fez ir pra o papel?

Sempre desenhei, mas meio cuzão, com medo, aos poucos fui pondo os desenhos em zines, videos, na rua. O papel é um desafio maior porque não dá pra mentir, se você não tem muita técnica que é o meu caso, você desenha o que você é, não dá pra enganar, não tem “Control Z”. O que me faz querer ir cada vez mais pro papel é esse desafio de bater de frente consigo mesmo, que nem terapia.

Vídeo Art

Vídeo Arte

Fanzine com texto, imagens e cd com vídeos.

Fanzine - Texto, imagens e cd com vídeos.

Sujeira – Eu percebi que os seus trabalhos sempre tem um questionamento pessoal ou do mundo, o que influencia isso?

Porra, beleza por beleza é legal, mas gosto de conversar, pra mim a beleza é importante, mas tá lá pra quinto lugar de importância num trabalho, to mais interessado na sinceridade, na discussão.

Informação/Desinformação

Informação/Desinformação

Sujeira – A gente sabe que existe um senso comum que coloca a arte em patamar de elite, como vê essa visão e o que pode dizer pra afirmar que isso é um erro

Tem um artista alemão chamado Joseph Beuys que diz que “Todo mundo é artista” e se você olhar no dicionário, arte é tudo aquilo que o homem produz. Uma obra de um artista da Bienal pode ser um “privilégio” de uma minoria, de uma elite milionária, mas isso não é tudo que existe, estão aparecendo cada vez mais galerias pequenas e artistas com pé no chão.
Sujeira – Eu te conheço pessoalmente e sei que o hardcore foi sua escola, queria saber se isso influencia até hoje nos seus trampos?

O hardcore tá no trabalho de arte que nem tá no dia a dia, na vida, não dá pra fugir. Na arte ele aparece no proceso, eu to produzindo algo ai já vem o hardcore cobrar: “Porque você tá fazendo isso? Será que isso é de verdade mesmo? O que você realmente acha disso?” A escola do hardcore fez eu tentar pensar por mim mesmo, questionar padrões, verdades impostas. Isso aparece nos trabalhos, por isso sempre coloco umas frases, é meio que uma conclusão de todo esse questionamento que tive durante o processo. Eu sei que o trabalho está pronto quando eu já sei o que quero dizer, antes de começar muitas vezes eu só tenho uma breve noção. Da musica sempre vem uma frase, uma ideia também, que acaba no trabalho, por que é o que está mais perto.


Sujeira – E a Lowtown? O que é, que trabalhos fez?

A Lowtown é uma produtora de vídeos que trabalha com bandas e artistas independentes, fizemos um documentário pro DVD do Garage Fuzz , DVD do Boom Boom Kid, Mukeka Di Rato, Laja 100, Clipes, etc. To dando uma força agora pra um projeto de video do Diogo Disturbios, relacionado a musica também.

Lowtown

Lowtown

DVD Boom Boom Kid

DVD Boom Boom Kid

Sujeira – A gente sabe que muita gente força a barra dentro do punk com o lance de ser anti-arte, mas no sentido literal da coisa, não como um movimento de arte, você tem uma opinião sobre isso, essa herança hater que o hardcore/punk deixou?

Tem punk que é anti-trabalho, anti-arte, anti-sexo, anti-umapádecoisa. Pra mim o punk é uma cena de liberdade, que cada um pode ser você mesmo e foda-se, então tem muita gente que fica encanada com essas “regras” do punk e acaba esquecendo de pensar por si próprio ou se boicotando de fazer alguma coisa, de ter um trabalho, fazer um desenho, colar numa balada, o que for, só porque é punk. O Crass era um role de arte e a musica era só uma parte disso, tinha os vídeos, os desenhos. Mas por outro lado, eu até entendo que essas pessoas não sejam a favor, não é fácil entender arte, assim como não é fácil entender o punk.  No meio da arte tem muita merda, tipo idolatria e pagação de pau pro artista que às vezes é visto como um ser superior, e o punk tem isso de querer matar os ídolos, de não ter idolatria. Do jeito que eu vejo, o artista tem o mesmo valor que um pedreiro, um médico ou qualquer outra pessoa. Hoje em dia a arte é mais democrática e de uns anos pra cá “todo mundo é artista” e às vezes parece que ninguém tem nada para dizer, então às vezes parece charlatanismo mesmo, alguns casos eu também acho isso, mas no geral é mais complicado que isso, tem muito mais coisa por trás, tipo, você já tentou explicar o que é o punk pra alguém com um estilo de vida totalmente diferente? Tu pode até tentar explicar, mas a pessoa nunca vai entender o que é de verdade. Com a arte é a mesma coisa, tu pode tentar explicar, mas é complicado de entender, só vivendo mesmo.

Não é fácil, mas é longe de ser difícil

Não é fácil, mas é longe de ser difícil

Sujeira – Falando um pouco sobre a exposição, como foi à escolha dos artistas? Qual foi a motivação de criar o projeto?

Quis chamar pessoas que eu curto o trabalho, que tem algo pra dizer, e que parte  dos meus camaradas não conhecessem. O fato de essas pessoas serem ligadas ao hardcore/punk foi só coincidência, isso não foi critério. A motivação é criar pontes, aproximar pessoas e rolês diferentes, mas com coisas em comum.

Exposição "Deturpação"

Exposição "Deturpação"

Sujeira – Queria que discorresse um pouco sobre os benefícios e malefícios de se trabalhar no underground, o que acha que pode ser aprimorado e etc.

O beneficio é não ter que trabalhar com um bando de babacas todo dia e poder ser você mesmo, entre uma porrada de outras coisas. Os malefícios é que as gerações anteriores usaram muita droga e tão muito lesadas pra trabalhar direito haha. Tem aquela ideia aqui no Brasil de que ter um selo, uma distro é pra se fuder, de que se trabalhar no underground vai só gastar grana. Isso é errado. Falta gente trabalhando sério e direito.

Sujeira – O que acha da pretensão de viver disso? Acha possível ter esse tipo de pretensão sem cair nas garras do mainstrean?

Por anos eu quis ter outro trabalho regular, para não comprometer a produção de arte, pra poder criar sem me preocupar em vender, pra ter o meu tempo, etc. Essa é uma questão foda. Eu quero em breve já viver disso, e cada vez menos trabalho com coisas não ligadas a arte. Existe uma pequena cena independente se formando, pessoas com o pé no chão, sem o deslumbre da arte da Faap, mas essa cena ainda não se sustenta, ainda falta muita coisa, espaço, mídia, a cabeça mesmo mudar.  Trabalho por essa cena, e se ela se pagasse, as pessoas conseguissem viver, viajar com o trabalho, num esquema punk mesmo, pra mim estaria ótimo. Gostaria de ver a cena se autogerindo sem precisar de governo, edital, prefeitura, o que for, mas a realidade não é essa.
Hoje tem, por exemplo, o Pexão, um cara que há anos tem uma galeria pequena e bem foda em Porto Alegre, fez um puta corre sério no underground e agora continua tocando a galeria pequena, mas abriu uma galeria branca mesmo, coisa grande, aqui em SP. Esse cara pegou vários artistas do underground, alguns vindo do Punk, tá representando essas pessoas, dando um gás e essas pessoas talvez possam agora depois de décadas se fudendo, ter um respiro econômico. O punk é tipo uma bola de ferro presa no seu pé que você carrega pro resto da vida, se o artista veio de lá e estiver vendendo um quadro por 20 mil reais, ele não vai pegar essa grana e comprar uma Mercedes, o cara vai fazer uma pista de skate, montar um selo, sei lá. O cara não vai cobrar 20 mil de um amigo, vai trocar ou dar o desenho.  É ótimo ter grana circulando nessas mãos. A arte visual pra mim não é como o skate ou o punk que quanto mais obscuro mais legal, é diferente, mas ainda não sei direito como ou por quê.

Sujeira – Pra finalizar gostaria queria que citasse as suas influências principais, sejam elas inusitadas ou não, dentro de tudo que está ligado a produção artística, seja música, vídeo, texto e imagem.

Influência é difícil falar, tem várias, não sou ingênuo, mas a parada pra mim é mais de colocar as coisas pra fora do que ficar pesquisando pra juntar elementos e montar uma formula que dê certo, então as coisas que influenciam são a praia, ter andado na praça, anos 90, roubado madeira na construção, shows de rock, vídeos e arte de surf e skate, capas de disco, art-xerox, papel rasgado, pessoas com mais de 40 anos que ainda usam boné e se mantem jovem. Tipo isso.

Colagens

Colagens

Sujeira – Manda aquele salve e a mensagem que quiser.

Valeu pelo espaço Xavero e Sujeira, essa foi minha primeira e melhor entrevista. Abs

Entrevista com Carahter.

Carahter certamente é um dos nomes mais emblemáticos do Hardcore/Metal underground mineiro. Se você acha que a fórmula Hardcore mais Metal está batida, provavelmente não conhece o Carahter, que faz essa mistura sem soar óbvio e de forma não cansativa, tarefa que muitas bandas do “gênero” nem sempre conseguem cumprir. Dez anos após o lançamento do disco “O Intenso desespero sobre a decadência humana” e passado por um hiato de aproximadamente cinco anos, a banda está de volta e com força total. Durante 2011 tocaram em diversos shows, dentro e fora de Minas Gerais, também entraram em estúdio e lançaram virtualmente três sons destes novos registros, que podem ser ouvidos aqui. Nesta entrevista Renato (vocal) fala com o Sujeira sobre o retorno da banda, mostra a sua percepção quanto ao circuito DIY europeu e comenta sobre os planos da banda.

Sujeira – Primeiramente gostaria de agradecer a você, Renato, pela entrevista cedida. Para começar, como surgiu a idéia de voltar a tocar com o Carahter? Quais foram os fatores que motivaram a volta da banda?

Renato – Cara, nós que agradecemos o espaço aqui, valeu demais pela oportunidade!

Mas então, em 2005 metade da banda se mudou para Los Angeles. A gente ia gravar o disco novo lá e todo mundo estava na pilha. Mas eu (Renato) tive uns problemas pessoais e não fui, nisso outra parte acabou voltando pra cá e ficou todo mundo separado. Com isso ficou tudo mais complicado e a coisa foi esfriando até que quando agente viu a banda tinha acabado.

Em 2010 estava já todo mundo de volta no Brasil e voltamos a encontrar. Agente gostava muito das coisas novas que agente tinha feito, já tinha muita coisa pronta mas nada gravado ainda. Nisso voltamos a ensaiar e a fazer mais musicas e aos poucos a coisa foi engrenando de novo.

Em 2011 resolvemos gravar 3 dessas musicas novas e voltamos a tocar também.

Sujeira – O circuito Hardcore/Metal é costumeiramente concentrado nas grandes capitais, principalmente em São Paulo (cidade onde nós do Sujeira vivemos) e em muitas vezes estes circuitos tornam-se restritos a bandas locais. Qual é a maior dificuldade em fazer este intercâmbio com outras regiões do Brasil?

Renato – A maior dificuldade é a questão financeira no final das contas. Viajar com banda sempre tem um custo grande de transporte, rango , etc. E todos nós trabalhamos e temos contas para pagar, então acaba que não podemos “perder” muita grana com a banda e não é todo show que consegue pagar as despesas. Então sempre fica naquele dilema, mas sempre estamos na pilha de tocar fora de BH e tentarmos fazer isso da maneira mais econômica possível pra poder viabilizar pra todo mundo

Sujeira – Vocês já sairam em turnê pela Europa, certo ? Quais foram as maiores diferenças, notadas por vocês entre a cena musical underground brasileira e européia?

Renato – Saimos sim, em 2004. Foi uma turnê muito foda, 33 shows em 13 países! Uma experiência marcante para todos nós. Acho que a principal diferença é a infra estrutura que o underground de lá tem. Toda a rede funciona bem, os caras que armam as turnês, as casas, o esquema de backline, de van, enfim, tudo funciona melhor e fica redondo no final das contas. Outra coisa que ajuda muito também é que lá tem uma cultura de ter show dia de semana, o que aqui no Brasil geralmente não funciona.

O público em si não é tão diferente daqui…tem lugar que a galera é mais “fria”, mas no geral todo mundo era bem interessado e pelo menos ouvia com atenção o show. Rola uma boa vontade com as coisas de fora.

Carahter no Kool Metal Fest. Foto por: Wander William

Sujeira – Comparado ao disco “O intenso desespero sobre a decadência humana” a banda passou por uma considerável mudança musical, a minha impressão é que o Carahter tornou-se muito mais denso, musicalmente falando, apesar disso a sonoridade não foi descaracterizada. Isto foi um processo natural ou essa mudança foi premeditada?

Renato – Foi um processo totalmente natural. A gente se orgulha muito do intenso desespero sobre a decadência humana, mas lá se vão dez anos! Hehe.

É tempo pra caralho…muita experiência vivida, muitas influencias novas, mas acho que as características principais estão também nas músicas novas, ainda que de maneira diferente. Mas as mudanças são sempre naturais, a gente não senta e fica pensando “vamos fazer uma música diferente agora”, as coisas simplesmente fluem desse jeito.

Sujeira – Quais são suas principais influências musicais ? Vocês tem alguma influência inusitada, digo, alguma influência que possa causar surpresa ao ouvinte padrão de Hardcore/Metal?

Renato – Cara, todo mundo da ouve muita coisa diferente. A gente se encontra musicalmente no Metal e no Hardcore, mas todo mundo tem influencias diferentes, então acho que isso tudo acrescenta ao processo de criação e composição. Mas pode saber que a gente ouve de tudo de The Police, a Pink Floyd , de Morrissey a Death, música instrumental, rap, enfim, é até difícil nomear pra não ser injusto com o gosto de todo mundo! hehe

Sujeira – A banda possui outras influências não musicais que de alguma forma se projetam na hora de fazer uma letra ou mesmo uma música?

Renato – Sim, cara. Acho que o processo de criação passa muito por essas influências externas. As vezes é um filme que você vê que te inspira para uma letra ou até mesmo para compor uma música. As vezes é um livro. Além é claro das experiências pessoais de cada um. Cada porrada da vida serve não só de aprendizado, como na maioria das vezes também de inspiração.

Sujeira – O Carahter possui uma sonoridade que não pode ser facilmente rotulada, acredito que seja pelo fato de juntarem diversos elementos de vários subgêneros dentro do Hardcore e Metal e os condensar em uma coisa só. Ao meu ver o público brasileiro não assimila muito bem bandas assim. Você acha que há realmente uma resistência parte público quando tratamos de bandas não genéricas/convencionais, como o Carahter?

Renato – Acho que muitas vezes rola o estranhamento inicial. O cara muitas vezes quer ouvir algo mais comum que ele ta mais acostumado e quando ele ouve algo que foge um pouco disso ele acha estranho. Mas nos shows que a gente tem dado, a recepção tem sido boa. As vezes rola esse estranhamento inicial, mas depois o cara acaba curtindo o som e o show. Mas se o cara não curtir, nós não vamos perder o nosso sono por causa disso.

Sujeira – Por falar nisso, como foi a resposta do público com a volta da banda ?

Renato – Cara, tem sido muito boa! Bem legal mesmo. O segundo semestre do ano passado foi bem intenso. Muitos convites para shows, lançamos as três músicas novas, lançamos merch novo…e para tudo isso a resposta foi bem positiva. A gente tava até um pouco receoso, porque voltamos totalmente focados nas músicas novas, mas acho que o pessoal entendeu bem essa proposta.

Sujeira – Houve uma renovação de público ou vocês vêem nos shows as mesmas pessoas que assistiam a banda a 10 anos atrás ?

Renato – Acho que é um misto. Em BH vai muito amigo das antigas, muita gente que ia aos nossos shows e vai naquela onda de nostalgia. Mas tem a molecada nova também que só conhecia a banda de nome e tá conhecendo agora com as músicas novas e com os shows de agora. Então , aqui em BH pelo menos é bem mesclado.

Em SP e outras cidades é difícil dizer, porque na maioria das vezes tocamos em festivais ou com outras bandas maiores, mas acho que rola essa mistura também.

Sujeira – Desde de que a banda retornou, a impressão que tenho é que estão sempre em atividade, seja gravando, tocando em shows ou mesmo planejando os próximos passos da banda. Quais são os planos de vocês para o ano de 2012 ?

Renato – É cara, a gente tenta sempre tá fazendo alguma coisa pra não deixar a chama apagar!
Mas no momento estamos completamente focados na gravação do disco novo que vai ter onze musicas . Já gravamos todas as bateras e agora estamos indo para as guitarras e baixos. A nossa previsão é de até meados de abril já estar com pelo menos a gravação toda pronta, para tentar lançarmos em junho/julho.

Sujeira – Tem planos para o lançamento de material físico ?

Renato – Temos sim…ainda não sabemos o formato para falar a verdade. Não tem como negar que a internet mudou tudo em relação a lançamento de material físico. Ainda não sabemos se vamos lançar em cd mesmo ou tentar correr atrás de lançar em vinil o que seria fodasso! Mas agente ainda ta vendo isso tudo , o importante mesmo é focar agora na gravação para não botarmos o carro na frente dos bois, como dizemos por aqui!

Sujeira – Novamente agradeço em nome do Sujeira a entrevista cedida e deixo aqui o espaço para divulgar o que quiser o dizer algo que considere importante! Valeu, Renato

Renato – Nós que agradecemos. Zines( e webzines) são um dos elementos mais importantes da cultura do underground e é algo que está faltando demais no Brasil.

Bem, o que a gente pode dizer é pro pessoal ficar de olho no nosso facebook (www.facebook.com/carahter) e no twitter (twitter.com/carahter) porque assim que a gravação estiver pronta a gente deve lançar alguma coisa! 2012 promete e nos vemos na estrada muito em breve!

Foto por: Marcel Gallo

Paura conversa com o Sujeira e fala sobre a nova fase da banda

Foto promo - Formação nova @ Foto por: Wander Willian

Paura já tem um bom tempo de estrada sempre representado por 5 integrantes, os caras apostaram durante todos esses anos na mistura entre Metal e Hardcore. Influênciados por expoentes de ambos os estilos os caras nunca deixaram a desejar se tratando de competência, técnica e energia. O primeiro  disco foi lançado em 1996 “Family Trust”, nessa época já mostravam que estavam a frente quando se tratava de tocar hardcore, se mantendo antenados com o que rolava no exterior, sem aquele ‘delay” comum no Brasil e paises mais afastados. Sempre que converso com alguma pessoa que frequentou shows nos anos 90 é certa a resposta de que os caras eram os favoritos da época.
Uma coisa é fato, a banda fez parte e são extremamente importantes na história do hardcore nacional, nessa entrevista abordamos a nova fase da banda, planos, mudança de formação (coisa que já estão bem calejados) e assuntos relevantes que  não se remetem a nenhuma nostalgia.

Sujeira – A banda mudou de formação no final do ano passado mais o menos, foi algo conversado e esperado ou foi tudo de surpresa, como foi à saída do ex batera Henrique?

Rogério – Foi algo esperado a partir do momento que você percebe tocando que as coisas já não fluem tão naturalmente assim. Algumas atitudes nos levaram a essa mudança. Voltamos, na medida do possível, a nossa origem.

Fabio – Pra mim, foi inesperado porque tinha 20 dias que tínhamos voltado de uma turnê europeia e tínhamos 2 shows marcados pra menos de duas semanas. Mas que as coisas já não andavam bem com ele na banda, isso é fato.

Caio – Ao longo do tempo, nosso convívio com o Henrique foi ficando muito desgastado, e isso também se refletiu musicalmente. Enquanto todos na banda queriam dar um direcionamento mais cru e direto no som, ele estava numa pegada mais técnica, mais metal. Então a saída dele acabou sendo natural.

Sujeira – Vejo nas fotos de vocês que tem escutado muita coisa relativamente nova (pelas camisetas) se tratando de hardcore, vocês tem costume de ir atrás das bandas novas (garimpar e tal)? Isso acaba influenciando nas novas composições?

Rogério – A gente sempre pega uma coisa nova aqui e ali. Hoje isso basicamente vem dos contatos/amigos na internet mesmo. Acaba influenciando se for algo que achamos realmente energético/interessante para a nossa música. Daí nós temos um bom mix disso tudo com as nossas influências dos anos 80/90.

Caio – Quando você compõe, não tem como escapar do que você está ouvindo no momento, inclusive as bandas novas.

Fabio – Não dá pra ficar só preso aos clássicos do passado. Carrego essa ‘ânsia’ de descobrir bandas novas desde que comecei a escutar som. É algo que faz bem, saca, ver que sempre tem renovação, sangue novo, com conteúdo, eu acho importante e é um sentimento legal acompanhar isso por tanto tempo. E uma coisa ou outra acaba influenciando.

Foto por: Wander Willian

Sujeira – Queria que vocês comentassem a escolha do novo baterista Fernando Schaefer, os “porquês” de ter escolhido o cara, como tem sido a recepção dele dentro da banda em relação a galera que curte o som de vocês?

Caio – A recepção tem sido bem positiva. O Fernando agrega muito musicalmente à banda, e na parte da correria, o que é muito importante também.

Rogério – A escolha foi meio lógica no que tange a musicalidade da banda. Eu era vizinho do Fernando quando ele morava na Aclimação e a partir dali começamos a manter um contato, sempre trocando idéias/informações sobre hardcore. Uma vez surgiu a oportunidade de show para o Paura e o antigo baterista teria algum outro compromisso. Daí ele me falou para passar um setlist que ele deixaria tudo tirado e assim que precisasse a gente daria um toque nele. Na verdade nunca rolou. Mas agora aconteceu definitivamente e ele está bem na banda, integrado. Fizemos 3 shows com ele, sendo que o primeiro fora 6 dias após a saída do antigo. A receptividade foi boa. Ele já é uma figura conhecida no meio e um músico acima da média.

Fabio – E foi o primeiro cara que se dispôs a nos ajudar quando ficou sabendo que estávamos sem baterista. Tirou 8 sons em uma semana e conseguimos fazer os shows agendados que, à priori, cancelaríamos.

Fernando Schaefer em ação @ Foto por: Wander Willian

Sujeira – Vocês tem ido sempre à Europa tocar, queria saber isso é consequência da escassez de eventos legais aqui no Brasil ou tem algum outro motivo? Pra completar queria saber os aspectos positivos e negativos da cena lá de fora.

Rogério – Não seria esse o motivo. Mas sim o de ser mais viável se fazer uma “tour” de verdade na Europa do que aqui no Brasil. Estamos, infelizmente, a milhas de distância disso por aqui ainda. Poder alugar uma van e sair viajando e tocando por 30 dias, se bancando, esse é o motivo. Os aspectos positivos são a condição e o respeito que se tem para tocar na Europa, agora quase que inteira, pois o lado leste evoluiu bastante também. O respeito das pessoas é absurdo. Claro que como em todo lugar do mundo existem modas e tudo mais e por lá, em alguns lugares, não é diferente. Isso dentro do cenário hardcore mesmo. Mas é a velho chavão, quem está na parada, você encontra novamente mesmo depois de alguns anos. Agora os modistas, esses são de 1 ou 2 verões.

Fabio – É foda porque já fomos pra lá três vezes e ainda tem muita coisa a ser explorada por nós lá. A abrangência do circuito é muito grande na Europa. Desde os grandes festivais até as pequenas gravadoras, tudo tem sido estruturado há muito tempo e isso deixa muitas portas abertas. Desde 2008, quando fomos pela primeira vez, temos aumentado nossa base de amigos e isso vem facilitando muito.

Caio – Como meus comparsas bem falaram, é mais pela questão que lá existe um circuito, uma estrutura onde você pode fazer shows praticamente todos os dias, enquanto aqui no Brasil, não. Além disso, na Europa, a cultura do hardcore e da música pesada é muito mais difundida do que aqui, e sentimos que temos algo a acrescentar lá e que a galera vai apreciar o nosso som.

Paura ao vivo no Festival Open Hardcore Fest na Polônia em 2010

Sujeira – Como vocês que tocam a muito tempo vêem a cena underground hoje aqui, espaço pra música pesada, hardcore e suas vertentes, tem espaço realmente pra isso? 

Rogério – Complicado. Acho que tem alguns espaços, mas não temos muita consciência do cenário. Temos muita segregação de estilos, política, religião dentro desse suposto “cenário”. Isso dificulta o desenvolvimento da coisa toda. Têm aparecido muitos “produtores” equivocados que acabam prejudicando tudo também.

Fabio –  Espaço pra todo mundo sempre teve, e sempre terá. Mas é bem isso que o Rogério disse. E, só completando, quando a vaidade é o maior motivador de alguém num cenário, tudo se fragiliza conforme esse alguém segue sendo ‘referência’. Quanto mais tempo as coisas caminham desse jeito, mais fragmentado fica o cenário musical.

Caio – Concordo com os caras que tem espaço, sim. E que o desenvolvimento da cena depende de união das partes que ela é composta. Velho clichê, mas que ainda todos temos que aprender a colocar em prática.

Sujeira –  Musicalmente falando é difícil não notar que o Paura é uma banda muito técnica e bem acima da média nacional, vocês levam o lance de tocar bem a sério até que ponto? Isso pode ser um dos motivos de várias mudanças de formação ou nada a ver?

Rogério – Eu não levo tão a sério assim. Já fiquei mais em cima da guitarra do que hoje. Como escutei sempre de tudo, isso me ajuda na hora de compor e me localizar. As mudanças geralmente se deram por algum motivo pessoal, nada relacionado à técnica musical.

Fabio – Pode crer. Nunca houve uma mudança de formação no Paura por causa do lado da musica. Sempre aconteceu por influência externa.

Caio – Eu também nunca fui muito encanado com esse lance de técnica. Sempre valorizei mais a musicalidade, e a “pegada”. Como a gente toca há bastante tempo, e tendo bastante referências de som também, isso se reflete na música. Você comenta sobre uma “média nacional”. Uma coisa que acho é que na questão “técnica” as bandas brasileiras ainda devem um pouco pras bandas gringas, principalmente pela falta de estrutura e acesso comparado ao que eles têm lá fora. Mas, com a difusão da internet e outros fatores isto tem mudado, estamos cada vez mais perto deles neste aspecto técnico.

Rogério tocando com Paura no Inferno Club

Sujeira –  Queria saber o que vai rolar em 2012, planos futuros de disco novo, clip e etc.

Rogério – 2012 o mundo acaba…hahahaha
Estamos gravando quatro músicas para um sete polegadas que vai sair pela Definite Choice Records. Estamos pensando em um clipe de algum som desse compacto, mas ainda não é certo. Tour na Europa em agosto. Algumas datas agendadas para o sul do país também. Mais do mesmo. Apenas mais e mais. Tocar, tocar e tocar.

Caio – É isso aí, e tudo no DIY, porque é assim que tem que ser.

Fabio – 2012 é ano do centenário do Santos Futebol Clube….hahaha

Clipe da música No Hard Feelings?! Fuck You! lançado em 2010

Sujeira –  Alguém da banda tem outros projetos? 

Rogério – Eu não.

Caio – Eu também não.

Fabio – O Cris (Bandanos) me chamou pra cantar no Mandibulla, que é uma banda que ele queria montar fazia anos e nunca tinha rolado. Dessa vez, ta rolando legal…hehehe. A banda ainda conta com o Cleiton (Travolta Discos) e o Thiago (Still X Strong) nas guitarras, o Helder (Bandanos) na batera e o Cris no baixo. E o Fernandão toca em uma porrada de bandas além do Paura.

Sujeira – Gostaria que citassem coisas que ao seus olhos são possíveis na cena nacional, porém não são aplicadas, algo simples que poderia melhorar, mas muitas vezes passam batido (qualquer coisa)
.

Caio – Acho que nós, como banda, poderíamos ter mais mentalidade de “turnês”, fazendo como um “pacote” de bandas nacionais, parecido como fizemos com o StillxStrong. Vejo que assim o circuito fica mais fortalecido, podendo rolar shows sempre nos mesmos lugares, em cada cidade, e mais bandas poderão fazer o mesmo. O público também tem que ter uma mentalidade de apoiar as bandas locais, comparecendo aos shows e comprando merch, não só das bandas internacionais.

Fabio – Uma coisa que eu acho que é bem simples e cabe pra todo e qualquer promotor de show de qualquer lugar do Brasil: rango pra banda. Em qualquer evento mesmo, de periferia ou clubes badalados. Um promotor não gastará 20 reais em uma macarronada simples, que alimentaria banda e equipe (vegan ou não) e isso faz uma diferença brutal pra quem ta na estrada. É um lance simples, mas que entra nessa idéia de RESPEITO.

Rogério – Respeito em qualquer aspecto.

Sujeira –  Espaço pra mandar uma mensagem ai, gostaria de pedir pra citar bandas que vocês gostam, nacionais e internacionais que valem a pena pra galera conhecer (qualquer estilo)

Rogério – Acho que tem muita coisa legal acontecendo no cenário daqui. Muitas bandas daqui são milhões de vezes melhor que bandas de fora. As pessoas deveriam se importar com isso e ajudar de qualquer maneira. Seja indo a shows, trocando uma idéia com alguém de qualquer banda, comprando discos e/ou merchandising, se informando sobre tudo e sobre o que realmente lhes interessa. Estamos sempre por ai. Se não nos nossos shows, nos shows de bandas amigas. Sempre dispostos a conhecer novas pessoas e novas idéias.
Bandas nacionais: Still X Strong, Test
Bancas internacionais: All Pigs Must Die, Abhinanda

Fabio – Assino embaixo o que o Rogério falou. E pra quem ainda não conhece, além das já citadas pelo Rogério, eu recomendo:
Like A Texas Murder, Final Round, Oitão e Bayside Kings (Nacionais).
Cerebral Ballzy, United Blood, Black Breath, Coke Bust, Alpinist e pra namorar, os 2 eps do Crosses do Chino Moreno (Deftones)…hahaha.

Caio – União é um clichê que é falado, mas muitas vezes não é aplicado na nossa cena. Temos que ter humildade para descermos do pedestal do nosso ego, e respeitar a individualidade alheia. Querer impor regras ou esperar certo tipo de comportamento beira ao ridículo em um meio tão à margem da sociedade, um dos poucos lugares em que podemos expressar a nossa liberdade.
Nacionais: Ralph Macchio, Bullet Bane, Blackjaw
Internacionais: Alpha & Omega, For the Glory
Valeu aí Sujeira pelo espaço, tamo junto!

ESCUTE AQUI

“São três décadas dedicadas ao Underground”, Entrevista com Boka (Ratos de Porão)

Banca da Peculio @ Hangar 110 - Foto por: Mateus Mondini

Boka, figura carimbada do Underground nacional. Neste post uma entrevista curtinha sem entrar em méritos de sua vida pessoal, apenas focando curiosidades e feitos no underground. Baterista da lenda do hardcore nacional Ratos de Porão, já passou bandas como Psychic Possessor, I Shot Cyrus e é dono do Selo Peculio Discos.
A conversa foi bem tranquila, respondendo algumas curiosidades e com bastante senso de humor. Boka está presente na cena independente a mais ou menos três décadas, continua sendo assíduo frequentador de shows grandes e pequenos, apoiando a cena hardcore DIY sempre. Se você nunca ouviu falar nesse cara, dê uma lida na entrevista e depois vai atrás dos discos do Ratos e do seus outros projetos.

Sujeira: Queria começar com uma curiosidade, completando 30 anos de banda, você escuta o mesmo tipo de som que ouvia há anos atrás ou os ouvidos ficaram mais sensíveis e não tem tocado tanto barulho no seu som?

Boka: Cara eu ainda escuto de tudo, tenho a cabeça um pouco mais aberta até, mas basicamente minha escola continua sendo Thrash Metal, Heavy Metal, Crossover, Punk e Hardcore. Também escuto Rock N Roll 70’ e um Jazz.

Sujeira: Depois do Lançamento do DVD (Guidable) que conta a história da banda, rolou um retorno legal do público, gente nova interessada na banda?

Boka: Nossa, o retorno do documentário foi muito bom, pois conseguiu atrair o interesse dos fãs do Ratos de todas as fases, que com certeza são um pouco diferente, gente nova interessada é difícil ter uma relação direta, mas nos shows sempre colam,uma galera misturada com os fãs mais antigos.

Capa do DVD Guidable, que conta a história da banda.

Sujeira: Apesar do Ratos ter um público fiel, com o passar do tempo lançando material mesmo que não seja de inéditas, sente uma renovação no público, moleque novo indo atrás da banda e tal?

Boka: Eu não consigo ver uma relação de renovação com o Ratos, acho que uma banda como a nossa história e legado vai sempre atrair gente nova que começou a curtir som agora, mas continuam aqueles que já curtiam. Por exemplo: A gente vê pessoas de 14-15 anos de idade usando camisetas do Dead Kennedys, Black Flag, Cólera, Discharge e RDP, então se for por ae, vemos uma renovação.

Sujeira: Fazendo uma comparação com “ontem” e hoje, existe alguma coisa que você olha pra trás e fala “Nossa, como isso faz falta” ou “Antes era melhor por causa disso” em relação a tudo no circuito musical que a banda vive e viveu. (Por quê?)

Boka: Eu não curto nostalgia, porém minhas três décadas dentro do hardcore me fizerem ver de tudo e ter minha opinião sobre cada fase. Eu acho que tudo é diferente, 25 anos atrás a paixão era diferente, muito mais intensa, as pessoas valorizavam mais as coisas, isso era muito bom, porém mesmo assim não existia a leva de informação, discos e shows que temos hoje. Então é somente diferente, podemos tentar abrir os olhos de muita gente com nossa experiência e mostrar que temos que encontrar um meio termo parar continuação do underground, dar relevância mesmo! Como dizia uma música do Sick Of It All: “Velha guarda, nova guarda, não tem importância se seu coração e sua atitude for verdadeira”

Psychic Possessor - 1989 @ Uma das primeiras bandas de hardcore da baixada santista.

Sujeira: O Ratos tem letras que em sua maior parte acabam fazendo mais sentido para o povo Brasileiro, em meio várias turnês pelo mundo já rolou uma identificação e troca de ideia com a galera de fora (mesmo que seja América do Sul)?

Boka: Com certeza, muita gente pergunta sobre as coisas que estão nas letras, sempre conversamos com as pessoas e acabamos informando e abrindo a cabeça de muita gente sobre a situação sócio-política-econômica do nosso país e do 3º mundo de forma geral.

Ratos de Porão na Europa, em uma de suas muitas turnês pelo velho continente.

Sujeira: Você acha que enquanto tiver saúde e fôlego não vai parar nunca com a banda? Já passo pela sua cabeça se aposentar do barulho?

Boka: Sim, na verdade parar com o Ratos é um pensamento que eu já tive várias vezes, mas acho normal, pra qualquer pessoas fazendo algo por 21 anos (que é o meu caso), por outro lado a banda é grande parte da minha identidade e não gosto muito da ideia de não fazer mais parte disso, porém quando acontecer é preciso ter maturidade e aceitar tocando a bola pra frente, engraçado é que sempre quando penso nessas coisas alguém me para na rua pra me elogiar, falar da banda e expressar o quanto somos importantes para o underground.

Ratos de Porão - foto promo 2011

Sujeira: Em todos esses anos tocando no Ratos, além das outras bandas que tocou em Santos certamente você já viu muita coisa “nascer e morrer”. Como você vê o cenário da música pesada aqui no Brasil (bandas, shows, selos e etc.) atualmente?

Boka: Cara eu acho que os últimos 10 anos são um sonho, tudo que sonhamos se “realizou”, bandas, saem discos, bandas de fora tocam aqui, tem shows direto, não existe muitas tretas em shows. Não estou dizendo que hoje é perfeito, mas acho que as coisas estão legais se tratando do cenário.

I Shot Cyrus @ Arapongas Paraná 2007

Sujeira: Você que pegou uma fase onde os jovens ainda não tinham acesso à internet, você acha que ela é indispensável hoje ou ela trouxe alguns males junto com a praticidade? 

Boka: Sim, sem sombras de dúvidas a internet tem mudado todas as relações humanas, estamos ainda em uma transição, não sabemos onde vai parar, mas já posso colocação sim, alguns males estão bem latentes devido essa praticidade descomunal.

Sujeira: Vender CD no Brasil tem sido uma meta difícil de alcançar tanto para bandas quanto para os selos. Pra você que tem um selo e que já lançou bastante material, existe alguma saída ou alternativa hoje em dia em sua opinião que não seja parar de lançar material?

Boka: O interesse diminuiu muito, as vendas caíram, não é possível pegar uma banda nova e investir cinco mil reais e fazer mil cópias pra vender, com certeza mais da metade vai ficar com você. O que rola muito hoje são os selos dividiram o lançamento, a conta fica menos pesada e é mais de espalhar o material, mas sinceramente o momento para bandas novas está muito ruim, já as que têm um público cativo fica ainda Ok pra se trabalhar.

Selo Peculio Discos!

Sujeira: Queria que você citasse alguns discos de Punk que mudaram sua vida, na sequência queria que você citasse os discos mais inusitados que você escuta, aqueles que o fã padrão de Ratos vai ficar de cara e falar “Não acredito que ele escuta isso!!!”

Boka: Cara com certeza os discos que mudaram a minha vida foram todos relacionados ao crossover dos anos 80, tanto inglês como americano. Discos do Heresy, Napalm Death, Corrosion of Conformity, Attitude Adjustiment e etc. Esses discos acabaram comigo de vez.
Hoje em dia eu escuto muito Jazz, nomes como Monk, Miles Davis, Blakey, Roach, Coltrane e etc. Mas também estou sempre na barulheira de Converge e Brutal Truth.

Sujeira: Agora você tem espaço pra divulgar seus projetos e mandar um salve e falar o que quiser, valeu mesmo Boka!

Boka: Cara eu é que tenho que agradecer pelo espaço, te parabenizo pela iniciativa, não quero dizer muitas coisas, somente que não existe melhor lugar que o hardcore. Faça Você Mesmo e sinceridade sempre!

Para mais informações: Peculio Discos

Entrevista com Victor Whipstriker

Primeiramente gostariamos de agradecer ao nosso amigo Luiz Menezes (a.k.a XMenezesX) não só por ter cedido, como ter nos oferecido essa entrevista feita com o Victor Whipstriker.

Sem mais delongas, como dito temos como entrevistado Victor Whipstriker, veterano e figura carimbada do Metal Underground carioca. além de tocar nas bandas Farscape, Atomic Roar e Whipstriker, Victor também organiza vários shows no Rio de Janeiro, fugindo totalmente ao estereótipo Rockstar, confiram.

1 – Como surgiu a idéia de montar um projeto que levasse seu nome? Você passou a compor depois que teve a idéia do projeto ou você já tinha esses sons e eles não se encaixam em suas outras bandas?

Victor: Opa!  Primeiramente agradeço pelo espaço e pela entrevista! Apóio todo tipo de iniciativa underground. Valeu pelo contato! Bom, definitivamente a idéia não era montar um projeto com meu nome (rs). Eu já usava “Whipstriker” como pseudônimo na outra banda que eu toco, o Farscape. O fato é que eu estava com um monte de música que eu vinha fazendo desde 2001, então um dia decidi começar a gravar os sons e lançar. Escolhi Whipstriker porque já parece com nome de banda. Sempre me perguntam se é um projeto solo. Na verdade, é um projeto coletivo, onde todos que estiverem a fim podem se juntar pra fazer um som, tocar ao vivo e gravar materiais. Minha idéia quando formei a banda era não depender de ninguém pra continuar fazendo som, isto é, não ter uma formação fixa. Três ou quatro pessoas numa banda pode ser um problema na medida em que é difícil conciliar os objetivos, horários e disponibilidade de todos ao mesmo tempo. Sendo um projeto coletivo, eu não precisaria depender de pessoas fixas e, neste sentido, a banda iria se manter sempre tocando, viajando e gravando.

 

2 – Quando eu ouvi o Whipstriker pela primeira vez, pirei em perceber as influências muito misturadas: Inepsy, Motorhead, Midnight, Venom, Warfare e até algo de Thin Lizzy e hard rock setentista me vieram à cabeça no ato. Nos discos seguintes, a influência crust ficou mais forte. A intenção original sempre foi fazer algo que misturasse seus estilos e bandas preferidas ou a coisa saiu desse jeito naturalmente?

 

Victor: Sim, a idéia sempre foi misturar tudo que eu curto. Eu gosto de várias coisas dentro do rock de uma forma geral. Curto desde bandas dos anos 60/70 como Thin Lizzy, UFO e Captain Beyond, até as bandas mais extremas como Morbid Angel, Sarcófago e Entombed, passando pelo punk, crust, thrash, heavy tradicional etc. Enfim, a idéia é realmente misturar as influências. Nos materiais já lançados, o álbum é mais rock n’ roll, as demos são mais crust e os EPs são mais uma mistura de punk e metal.

 

3 – Além do Whipstriker, você toca no Farscape e no Atomic Roar. O Atomic Roar, conceitualmente, é bem próximo do Whipstriker, né? Ambos ficam naquele lance metalpunk e tal. Como você faz pra dividir o que vai entrar numa banda e na outra?

 

Victor: É, o Atomic Roar tem uma proposta parecida mesmo (rs). Bom, na verdade eu acho que componho por demanda. Vou fazendo um monte de música e na medida em que for tendo demanda pra gravar, eu vou colocando nas bandas. Eu faço os sons, depois vejo onde vai entrar.

4 – Falando um pouco do Farscape, ouvi dizer que o próximo álbum vai ser mais death metal. O thrash metal cansou? O revival parece ter dado uma esfriada e poucas bandas se mantiveram. Como você vê isso?

 

Victor: Sim, o próximo do Farscape vai vir com uma pegada mais death metal misturado com thrash. Não acho que o thrash deu uma esfriada não, tem um montão de banda surgindo em todos os lugares todos os dias. No nosso caso, nós também sempre curtimos muito death metal. Agora essas influências estão voltando mais. Não sei porquê, é coisa do momento mesmo. As músicas naturalmente estão saindo mais death metal.

 

5 – A meu ver, a onda crossover/thrash metal foi substituída pelo metalpunk/speed metal. Você concorda? Acha que a cena punk e metal acabam ficando muito refém desses ciclos?

 

Victor: Bom, é fato que existem estilos que se sobressaem em determinados momentos, mas não sei ao certo qual é o medidor pra saber que estilo está mais em alta. Como falei acima, acho que a onda thrash fez surgir muita banda boa que se mantém e até hoje surgem bandas o tempo todo. Sobre o metalpunk, eu também não sei em que medida está. Nós andamos viajando pela Europa e Brasil e eu percebi ainda uma separação muito grande entre os estilos. Acho que o crust é o maior elo entre o metal e o punk. E, de fato, tenho visto o surgimento de muitas bandas crust, todo dia alguém me envia som de uma banda nova do estilo. O grande lance é você fazer o que gosta e não montar bandas de acordo com a tendência. As bandas da tendência sempre acabam em três ou quatro anos, quem faz o que gosta toca pra sempre.

 

6 – Todo mundo comenta sua participação na tour brasileira do Toxic Holocaust, hehe! O que eu queria saber é: Assim como projeto do Joel Grind que começou com ele sozinho e hoje é um trio, você também vai estabelecer um line up fixo com o Pedro e o Leonardo?

 

Victor: O Pedro e o Leo são praticamente meus irmãos. Convivo com eles desde os oito anos de idade. Começamos a curtir som juntos e montamos o Farscape, que está aí até hoje. O fato é que temos uma afinidade musical muito grande. São eles que têm tocado na maior parte dos shows, fizeram tanto a tour européia quanto a tour brasileira. Enfim, sempre que eles quiserem tocar eles tocarão. Falar em line-up fixo é complicado, mas enquanto eles quiserem tocar e gravar darei prioridade pra eles.

 

7 – Vocês do Farscape começaram a tocar bem novos, não? Como você conheceu os outros caras da banda e como você se apaixonou por esse som? O thrash foi de cara o estilo que te levou pro underground ou você teve uma iniciação anterior em outros estilos?

 

Victor: Conheci os caras do Farscape na escola. Todo mundo estudava junto e morava no mesmo bairro. Então além da escola, a gente também se encontrava pra jogar futebol. E assim a gente também começou a ouvir som junto. Primeiro formamos a banda eu, Leo e Pedro. Nessa época a gente só conhecia as bandas mais famosas tipo Metallica, Motorhead, Sepultura, Misfits, RDP, Iron Maiden etc. Logo depois o outro Victor entrou pra banda. Ele já andava com uma galera mais podrona e por isso já conhecia um monte de banda mais underground. Quando o Victor entrou, ele mostrou pra a gente as bandas de thrash/death/black metal. Foi aí que tudo mudou e decidimos ter uma banda de thrash. No começo a gente só queria fazer qualquer barulho e tocar uns covers quaisquer. Nessa época eu e Leo tínhamos 12 anos e o Pedro 11. O outro Victor quando entrou já tinha 16. E assim a gente foi indo até fazer músicas próprias, gravar demo, fazer show. Foi assim que entramos no underground.

 

8 – Em 98 quando vocês começaram a tocar, o thrash estava em baixa, era a época do black metal dominando o underground. Era mais difícil ser thrasheiro em 98, hehehe? Vocês acabaram se influenciando pelos estilos mais em voga na época?

 

Victor: É fato que naquela época o black metal estava em alta. Nos nossos primeiros shows a gente só tocava ao lado de bandas de black e death metal extremo e isso realmente influenciava bastante. Prova disso é que nossa demo é cheio de coisa death metal e até mesmo umas palhetadas mais black (rs); Mas logo no primeiro disco já mudamos pro thrashão mais tradicional. Hoje estamos reincorporando essas influências de death metal no nosso som. Eu lembro que a primeira vez que fui a um show underground foi pra tocar com o Farscape. Éramos quatro moleques tocando thrash ao lado só de banda de death e black Metal. Fiquei com medo de ser repudiado, mas não rolou nada, todo mundo era gente fina.

 

9 – Fora metal, você já disse que é muito fã de hard rock 70. E de punk hardcore, o que você ouve? Sua praia são as bandas mais crust ou você curte um hardcore americano também?

 

Victor: É verdade, curto muito rock n’ roll anos 60/70. Com relação ao punk, minha praia são as bandas mais violentas mesmo de crust. Curto o som mais podrão tipo Anti-Cimex e Crude SS. Hardcore americano não sou muito chegado, não. Acho legal e tal, mas não é um som que me empolga tanto.

 

10 – Conta essa história de que você era jogador de futebol aí. Você jogou por qual time?

 

Victor: Hahahaha, eu joguei futebol até meu 14 anos. Cheguei a disputar dois campeonatos cariocas no futebol de salão e no campo. Eu jogava pelo Olaria, clube do bairro onde eu morava, mas essa vida de futebol é pra escravo. Tinha treino todos os dias da semana e jogos nos finais de semana. Eu não tinha vida! Assim que formei a banda passei a rever meus conceitos. A vida do rock é muito mais legal!

 

11 – O Whipstriker, o Farscape, o Atomic Roar, o Apokalyptic Raids, o Diabolic Force, o Hellkommander e o Sodomizer são todas bandas da mesma galera e que dividem membros em comum. Além disso, alguns desses membros são irmãos. Se um dia vocês saírem na porrada, acaba metade do metal no Rio, hehehe?

 

Victor: É mano, tocamos em várias bandas. Mas o Rio tem muita banda boa. No momento cito duas excelentes: Grave Desecrator e Corpo Sem Órgãos. Além dessas tem outras ótimas como Warkoholik, Pós-Sismo, Inferno na Terra, Anopsy, Flagelador, Shorthrash, Thrasheira, D-ecreasing Life e várias outras. Mas a gente não vai cair na porrada, não. Se fosse pra acontecer, isso já teria ocorrido porque nos conhecemos faz tempo (rs)!

 

12 – Uma vez eu li uma entrevista sua em que você dizia que gostava de carnaval, e que via na festa uma posição anti-Igreja. Explica melhor esse seu ponto de vista aí:

 

Victor: Eu curto carnaval (rs)! Na verdade eu curto toda a zoação que gira em torno do carnaval. Trata-se de uma festa cristã, mas na verdade é uma festa quase satanista: mulheres nuas, homens vestidos de mulher, bêbados espalhados por todos os lados, ruas fedendo a vômito, mijo e sexo, festa 24 horas, promiscuidade, libertinagem etc. Todos esses elementos me fazem gostar do carnaval. Por outro lado, é uma alienação extrema. Muitas pessoas vivem em função do carnaval e esperam por isso o ano todo. Quando chega o carnaval todo mundo esquece todos os problemas, bem como a letra do RDP diz.

 

13 – Você é professor, correto? Já deu aula pra algum protótipo de headbanger? Algum aluno já veio te pedir pra você indicar uns sons? E se pedisse, o que você indicaria?

 

Victor: Tem sempre uns alunos roqueiros na sala, mas nunca indiquei nada pra ninguém não. Só uma vez uma aluna perguntou se eu era roqueiro. Eu disse: “Claro que sim!”, aí ela pediu pra eu dizer as bandas que eu gostava. Eu escrevi no quadro “Anti-Cimex” e disse pra ela procurar ouvir que era bem legal.

 

14  – Você é um dos responsáveis pela cena aqui ter dado uma aquecida, ao menos em termos de shows, com os Noize as Fuck que vem organizando. Quais bandas você tem vontade de trazer pra tocar aqui? E quais as dificuldades em organizar show no Rio?

 

Victor: Rapaz, tem muita banda que eu queria trazer pra tocar aqui: Defy, Social Chaos, Violator, By War, Blasthrash, Braindeath, Projjeto Macabro, Blasfemador, Facada, Pesticide, Slaver, Deathraiser, Deluge Master, Beast Conjurator, Carrasco, Bonebreaker, Besthoven, Death from Above, Terror Reevolucionário, Subterror, tem uma lista muito grande. A dificuldade de organizar show é sempre a equação entre preço, local, equipamento, expectativa de público. No momento ta rolando show no Underground Cultural no centro do Rio e o esquema lá é bem favorável pra organizar eventos. Faço tudo o que eu posso pra movimentar a cena nesse sentido.

 

15 – Nos shows que você organiza, você gosta de dar chances às bandas iniciantes. Quais novas bandas daqui você vê com mais potencial? Alguma que você curta mais?

 

Victor: Sim, a idéia é colocar as bandas novas pra tocar, claro. Sou totalmente contra as panelinhas, ou seja, fazer eventos sempre com as mesmas bandas. Das bandas iniciantes eu curto mais o Corpo sem Órgãos, eles tocam um crust bem louco!

 

16 – Você acabou de fazer uma tour bem extensa pelo Nordeste. Como foi a experiência? Existe algum lugar no Brasil que você não tocou, mas gostaria? Alguma banda que acharia bacana dividir o palco?

 

Victor: Fizemos 15 shows no Nordeste esse ano. Eu acho a cena do Nordeste como um todo extremamente foda! Muita gente comparece nos shows e compra material. A experiência foi muito legal, fomos bem recebidos em todos os lugares e nenhum produtor fez nenhum tipo de merda. Tenho vontade de tocar em todos os lugares, não só no Brasil, como no mundo. Mas sendo mais específico, gostaria de tocar na região Sul, pois nunca fomos pra lá. Tenho vontade de tocar em Curitiba, Cascavel, Londrina, Maringá, Porto Alegre, Caxias do Sul. O interior de São Paulo também é muito foda, gostaria de fazer uma mini-tour pelo interior paulista.

 

16 – Além de jogar bola e gostar de carnaval, você também vai à praia (eu vi as fotos com os Black Coffins, hehehehe!). Praia, futebol e carnaval é melhor que deserto, explosão nuclear e mundo pós-apocalíptico, o trinômio metalpunk no resto do mundo? O hedonismo é a resposta carioca ao metal? Hehehehe.

 

Victor: Claro que eu curto ir à praia! Não há nada melhor que ir a praia e tomar uma cerva com os amigos (rs). O Metalpunk serve pra isso: pra fazer um som com letras que falem sobre todos esses problemas nucleares para que a praia não deixe de existir nunca, ou melhor, para que a praia não fique poluída com resíduos atômicos. Viva o hedonismo com responsabilidade!

 

17 – Ano passado você lançou o split com o Germbomb (em minha opinião, um dos seus melhores lançamentos até agora). Quais os projetos pra 2012? Suas outras bandas vão lançar alguma coisa? Vai rolar tour na Europa novamente?

 

Victor: A idéia é continuar na ativa fazendo shows e gravando materiais. O novo do Farscape sai esse ano ainda em CD e LP pela Bestial Invasion Recs da Escócia. Também quero gravar o novo Whipstriker esse ano, só ta faltando juntar a grana. Se conseguirmos juntar grana, queremos ir pra Europa, mas agora com o Farscape. Esses são os planos de 2012. E já começamos o ano fazendo essa tour no Nordeste, que foi bem proveitosa na minha opinião.

 

18 – Deixa um recado final pros leitores do zine. E o contato pra quem quiser manjar seu som e comprar seus discos.

Victor: Novamente agradeço pelo apoio. Continuem sempre fazendo esse trabalho de zineiro porque isso é muito importante pra cena como um todo. Quem quiser sacar o som é só entrar no myspace: www.myspace.com/whipstriker

 

Valeu pela força!

Marcatti e o Underground Paulista dos quadrinhos

Imagem

 

Iran e Marcatti

“O alternativo no Brasil sempre foi desprestigiado, mas temos espaço para todos”

Francisco A. Marcatti Jr. nasceu em São Paulo, 16 de Junho de 1962 no bairro do Tatuapé, que é situado na zona leste da cidade, nunca morou em outro lugar. É caçula de três irmãos. Marcatti é um quadrinista bem conhecido no underground paulistano. Ficou famoso pelo seu estilo “escroto” como ele mesmo diz. Seu interesse pela arte começou antes de aprender a ler e escrever. Sempre estimulado pela família, principalmente por sua mãe que já aos seis anos de idade lhe comprava materiais para pintar e despertar sua criatividade.

Ainda muito novo sempre foi muito ligado às histórias em quadrinhos, tinha um carinho enorme pela leitura, mas o que lhe fascinava desde jovem eram essas histórias em quadrinho. Sua mãe sempre o apoiava, por isso adorava lhe presentear com gibis da época. Marcatti desde cedo sábia o que queria, não parava de desenhar, tem desenhos guardados até hoje de 40 anos atrás.

Seu foco com a carreira de quadrinista começou um pouco mais “tarde”, aos 13 anos. Na época de colégio, fez amizade com um garoto chamado Marcelo, que também tinha o mesmo interesse e adorava quadrinhos. Através dessa amizade ele pode conhecer o quadrinho estrangeiro, pois tinha acesso a pouca coisa na época. Seu contato era apenas com o que tinha em bancas de jornal. Nunca foi um grande fã de Super Herói, por isso nunca teve interesse em Marvel e coisas de fora que eram comuns de se encontrar em bancas.

No jornal havia pouquíssimas coisas, na época reinava uma ditadura militar e a Zona Leste era um lugar muito isolado culturalmente “Então o que tinha de acesso a esse tipo de material aqui era muito pouco” diz Marcatti. Quando começou a andar com o Marcelo, pode ver o quão grande era esse circuito, pois ele já tinha uma boa informação sobre o assunto, outras fontes, trazendo para cá até quadrinhos Europeus e etc. Esse assunto acabou se tornando uma rotina pra ele, deixando-o por dentro de todas as novidades do mundo HQ.

Essa nova amizade acendeu o fósforo para colocar mais fogo na paixão de desenhar. Todos os dias um fazia uma visita para o outro, passavam o dia todo desenhando, experimentando coisas novas, criando, vendo desenhos de outros quadrinistas, testando novos materiais e etc. Com o Marcelo, Marcatti pode ter contato com o underground americano, que eram quadrinhos de contestação. Depois disso começou a desenhar mais em função do underground, não tentando criar uma estética promocional ou de cultura de massa.

Sua natureza sempre foi muito ligada ao humor, uma coisa mais “tosca” e grosseira, por isso ele diz sempre ter se focado mais no underground. Nunca estudou para fazer seus trabalhos, sua competência sempre foi movida somente pela força de vontade e o prazer de desenhar.

Em meados de 1975 ouve uma abertura política, na época já havia o Pasquim que era algo leve, porém dinâmico, pois a ditadura não estava no fim, mas o que ele adorava nesses jornais eram as entrevistas com quadrinistas. O que lhe chamava muita atenção é que sempre focavam que o quadrinista é autodidata. Para ele isso era ótimo, pois se via assim também, era estimulante saber que eles aprendiam a desenhar sozinhos e não precisavam de uma formação acadêmica para seguir carreira. Marcatti sempre ligado ao traço do humor, sempre buscou em se desenvolver sozinho. Na época a questão de não ter que estudar era vista por ele, como algo positivo.

Aos 15 anos teve suas duas primeiras HQs publicadas. Foi na revista Papagaio, produzida por alunos do Colégio Equipe (onde Marcatti jamais estudou). Editada por Paulo Monteiro, Antonio Malta e Rodrigo Bezerra, a revista contava ainda com a colaboração de Nando Reis, Marcelo Fromer entre outros, porém não teve uma grande repercussão.

Como o quadrinho não era sua fonte de renda, tinha que buscar outros meios, focando somente o lado financeiro, que era o fator de ter que buscar trabalhos alternativos. Apesar dessas buscas, nunca teve empregos fixos que duraram anos, apenas coisas pequenas que o ajudaram a se manter durante um curto período, como: auxiliar de escritório, ajudante de cozinha em uma pizzaria, também trabalhou em uma papelaria atacadista, que pode ser comparada com o que a Kalunga é hoje.

Quando trabalhou na papelaria foi o lugar que mais se sentia em casa, além do chefe ser amigo da família, ele já sábia o gosto que ele tinha pelo desenho. Então sempre que possível lhe cedia folhas novas de todos os tipos e materiais para desenho. Isso lhe deu oportunidade de “experimentar” e ver quais eram os materiais que ele mais se familiarizava, foi algo que impulsionou a ter mais vontade de seguir em frente.
Marcatti jamais se imaginou fazendo outras coisas, porém sempre teve que “trabalhar nas horas vagas” como ele mesmo diz, pois o quadrinho nunca lhe sustentou.

Em 1978 entrou no SENAI e foi fazer escola de Artes Gráficas, lá aprendeu processo de impressão e uma porção de coisas ligadas ao assunto. O curso despertou muito interessou a ele, pois quadrinhos têm que ser impressos, então todo aquele aprendizado começou a lhe estimular. La foi o lugar onde aprendeu muito sobre a produção gráfica, diagramação e tudo que envolve a produção de um material impresso, aos poucos foram se envolvendo nessa área e começou a trabalhar com diagramação de jornais, revistas de pequenas tiragens. Não trabalhou na grande imprensa, seus trabalhos eram mais com jornais de bairro, mas era algo apenas que lhe rendia um retorno financeiro, mas nunca foi seu foco como profissional.

Como teve o início de sua carreira bem no auge da ditadura militar, o que mais prejudicava era o medo, ninguém mais sofria com medo de bandidos, “nós temíamos a polícia”, várias vezes ele foi abordado pela polícia. Como ainda era jovem, não sofreu repressão nenhuma pelo seu trabalho, pois ainda não tinha repercussão nenhuma, mas os quadrinhos não eram uma coisa tão contundente politicamente.

No tempo do SENAI por ter tido contato com os sistemas de impressão – por que não era fácil produzir uma revista, era muito caro – então começou a ver a possibilidade de ter sua própria “grafiquinha” em casa. Na época não havia nem completado 18 anos de idade, mas quando completou 18 anos recebeu uma herança, dinheiro que chegou a boa hora, com isso ele consegue comprar uma impressora F7 de mesa. A partir dai pode ter sua própria gráfica em casa, humilde, mas que conseguia produzir as suas revistas, nascia a Editora PRO-C, que produziu todos os seus quadrinhos.

Uma das coisas que Marcatti só foi mudar anos depois, foi que, nunca teve um personagem fixo, sempre fazia histórias de aventura única, não era algo que tinha continuidade. O forte de suas histórias era a contestação social, o fato como todo. No período em que comprou a maquina e já estava com sua Mini Gráfica funcionando, ai sim começou a produzir muita coisa, se viu na situação de ter que começar a vendê-los.

No período de 80 até 85 ele produzia tudo independente e fazia uma jornada, então pode se dizer que nesse curto espaço pode “viver” de quadrinhos. Sua jornada começava bem cedo, como sempre teve enorme apoio de sua esposa. De manhã cuidava dos filhos, fazia almoço e lavava roupa, quando sua esposa chegava do seu trabalho, ai sim começava a produção. Desenhava na parte da tarde e a noite saia pra vender as revistas, todos os dias. Costumava fazer suas vendas na região do Bixiga, havia muitos bares e era um grande encontro de atividade cultural na época, tinham muitos cines clubes, cinemas alternativos e etc. Fazia isso sempre sozinho, abordando as pessoas e vendendo o material de mão em mão. Nunca foi algo que trouxe lucro, porém conseguia vender cerca de 1000 exemplares em dois meses, já era alguma coisa, uma verba muito útil para sua família.

O mais gratificante dessa rotina era que, como sempre teve um amor pela arte, era algo muito prazeroso para ele. Um escritor não vê o rosto das pessoas que leem seus livros. Como a maioria dos quadrinistas fica em casa desenhando, ele não tem contato com o seu público, seu livro é publicado, pode ser sucesso ou não, mas não tem contato direto com nenhuma pessoa. Para ele o legal de poder divulgar seu próprio material, era poder entrar em contato com as pessoas que consumiam seu trabalho, pegavam direto de suas mãos. Com isso pode fazer muitas amizades e criar alguns fregueses fiéis que lhe cobravam novos materiais. Mais tarde foi conhecer pessoas que compravam seus gibis, na época com grande frequência, um deles é o Fernando Gonzáles, que faz o Níquel Náusea na Folha de São Paulo, que dizia: “antes eu ia ao Bixiga de vez em quando, quando vi que o Marcatti estava vendendo os gibis dele, eu ia com mais frequência pra ver se tinha coisas novas”, como se ele fosse uma banca de jornal ambulante.

Mesmo produzindo muito, tendo a liberdade que só o underground oferecia aos jovens, ainda vivia uma enorme tensão por causa da ditadura militar. Marcatti era sempre abordado pela polícia, uma vez se safou de um espancamento coletivo dentro de um ônibus. Estava seguindo em direção ao centro, quando passaram ao lado de uma manifestação de estudantes, alguns estudantes correram para dentro do coletivo, mas não adiantou nada, os militares espancaram os jovens de forma bruta, Marcatti como era mais jovem foi abraçado por uma senhora de idade que disse que ele era seu filho e estava indo à igreja. Trabalhar com arte naquela época era algo complicado, principalmente quando não era algo feito para grande massa.

Marcatti sempre teve um enorme apoio de sua esposa, que o motivou a continuar com seu trabalho, ajudando ele em todas as ocasiões e estando presente em todas as suas conquistas, com esse apoio ele não precisou diminuir a quantidade de quadrinhos que produzia por conta do casamento. É casado com Fátima Pires (Tata) há quase 25 anos, ela nunca teve muito interesse em ler suas histórias depois de pronta, pois participa com ele em todo o processo de criação, roteiro, as mudanças, discutem para deixar da melhor forma possível.

Ao longo dos anos teve várias conquistas, passa a ser nacionalmente conhecido quando faz a capa do disco “Brasil” 1989, da banda de hardcore/punk Ratos de Porão, quando a banda estava com uma grande visibilidade. Com a boa repercussão do primeiro desenho para banda é convidado a fazer outra capa. Dessa vez capa do disco “Anarkophobia” 1990, que se tornou um clássico e revolucionou o rock pesado naquela epoca.

Apesar de o quadrinho ser algo sempre presente em sua vida, ao passar dos anos foi tendo algumas ocupações que lhe davam muito prazer e até um retorno financeiro. Um amigo uma vez lhe disse que para desenhar algo é necessário saber como aquilo é feito. Marcatti sempre teve esse vício de querer saber como funcionam as coisas. Esse estímulo faz com que ele se interesse por outras atividades. Desde jovem sempre gostou de tocar guitarra, então ele pegava sua guitarra e desmontava ela toda, anos depois também começou a construir instrumentos musicais, focados mais em instrumentos de corda, sempre nas horas vago, e claro, nada convencional.

Tudo que faz nunca é focado em ter um retorno, porém sempre acaba pingando um pouco aqui e um pouco ali, como ele mesmo diz. Além das guitarras, hoje está com um trabalho novo de restauração de carros antigos, isso nas horas vagas, pois continua sendo um quadrinista. Na imagem a baixo, um pouco do trabalho dele com restauração de carros antigos.

Em 2001, criou e desenvolveu o personagem FRAUZIO para uma revista mensal. Seu primeiro personagem ao decorrer de toda sua carreira. A revista foi lançada pela Editora ESCALA, com tiragem de 30.000 exemplares e distribuída em bancas de jornal de todo Brasil. Em 2003, publica quatro edições da revista Desventuras de FRAUZIO pela Editora PRO-C.

Com seu traço marcante e conteúdo fortemente voltado ao escatológico, Marcatti é considerado o mais importante autor de quadrinhos underground no Brasil. Sempre muito respeitado pelas pessoas que estão por dentro desse circuito. Hoje ele continua escrevendo roteiros, desenhando muito, mas continua trabalhando nas horas vagas, com a produção de peças para os automóveis e criando ótimos instrumentos musicais.

Uma foto tirada na casa de Marcatti em Junho de 2010 com alguns de seus diversos trabalhos. Uma guitarra com corpo de esqueleto com o desenho feito de forma artesanal, que estava em andamento ainda, mas com essa imagem já se percebe o auto grau de qualidade.

Nota: Uma matéria semelhante foi publicada recentemente na Revista Vice. Essa entrevista foi feita há um ano e meio e publicada em blog pessoal, editada agora para o Sujeira.

Para mais Informações: http://www.marcatti.com.br